Lefamulina oral: uma nova alternativa no tratamento de Pneumonia Adquirida na comunidade? NOTAS DE EVIDENTIA #342019

Por Inês Domingues Teixeira

PERGUNTA CLÍNICA

Será que a lefamulina oral de 5 dias é não inferior à moxifloxacina oral de 7 dias no tratamento da pneumonia bacteriana adquirida na comunidade?

A RETER

A pneumonia é uma das principais causas de morte por infeção e há cada vez mais uma preocupação face ao aumento das resistências bacterianas. Assim sendo, foi desenvolvido um ensaio clinico aleatorizado controlado, duplamente cego, de não inferioridade. O objetivo era comprovar que a lefamulina oral de 5 dias é não inferior à moxifloxacina oral de 7 dias no tratamento da pneumonia bacteriana adquirida na comunidade. O follow-up foi completo (95.8%) e foi realizada uma análise por intenção de tratar (ITT), complementada com análise ITT modificada, microbiológica e ainda uma análise da população clinicamente avaliável. Os resultados parecem demonstrar que a lefamulina oral de 5 dias é não inferior à moxifloxacina oral de 7 dias. A taxa de resposta clínica precoce foi de 90,81% com lefamulina versus 90,76% com moxifloxacina (diferença aproximada de 0,1% [IC unilateral 97,5% -4,4 a ∞]). Os principais eventos adversos foram os gastrointestinais, nomeadamente diarreia e náuseas.

QUAL A RELEVÂNCIA DESSA PERGUNTA?

A pneumonia é uma das causas mais comuns de hospitalização e uma das principais causas de morte por infeção. Atualmente, a primeira linha de tratamento, da pneumonia bacteriana adquirida na comunidade (PAC), incluiu beta-lactâmicos, macrólidos e floroquinolonas. Devido à crescente resistência bacteriana e preocupações relativas à segurança, surge a necessidade de novos antibióticos para tratar a PAC.

QUEM FINANCIOU?

O estudo foi financiado pela Nabriva Therapeutics

QUE TIPO DE PERGUNTA FAZ ESTE ESTUDO?

Tratamento – não inferioridade

CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS

Os participantes foram aleatorizados 1:1 estratificados tendo por base a classe de risco, região geográfica e tratamento prévio com uma dose única de antibiótico de ação curta dirigido a PAC. Doentes e investigadores estavam cegos para a intervenção, a não ser que se demonstrasse essencial desvendar a alocação para efeitos de gestão terapêutica emergente. Foi constituído um comité de monitorização dos dados e segurança, para avaliação de tolerabilidade e eventos adversos. Os autores são omissos se estes sabiam ou não a que grupo pertenciam os participantes.

Foi estabelecido no protocolo uma margem de 10% para a não-inferioridade do tratamento. De acordo com o RCM da moxifloxacina (fármaco utilizado no grupo controlo) em Portugal, os eventos descritos parecem estar em concordância com o previamente documentado.

O acompanhamento foi completo (taxa de follow-up de 95,8%). Foi realizada uma análise por intenção de tratar (ITT) que incluiu todos os participantes aleatorizados. Os autores complementaram esta análise com uma ITT modificada, excluíndo participantes que não receberam qualquer medicamento do estudo; uma ITT microbiológica, onde excluíram os participantes sem agente microbiológico de PAC isolado; e ainda uma análise da população clinicamente avaliável, que incluíu apenas participantes sem resposta clínica indeterminada, com cumprimento terapêutico por um período mínimo de 48h, e sem toma de outro tipo de antibacteriano, ou outros fatores adicionais que pudessem confundir a avaliação da eficácia.

QUAIS SÃO OS RESULTADOS?

1. Taxa de resposta clínica precoce na população incluída na análise ITT (n=738) foi de 90,81% com lefamulina versus 90,76% com moxifloxacina com uma diferença aproximada de 0,1%. [IC unilateral 97,5%: -4,4 a ∞]

2. Taxa de sucesso de resposta clínica na população incluída na análise ITT modificada (n=736) foi de 87,5% com lefamulina versus 89,1% com moxifloxacina com uma diferença de -1,6%. [IC unilateral 97,5%: -6,3 a ∞]

3. Taxa de sucesso de resposta clínica na população clinicamente avaliável (n=656) foi de 89,7% com lefamulina versus 93,6% com moxifloxacina com uma diferença de -3,9%. [IC unilateral 97,5%: -8,2 a ∞]

4. Taxa de resposta clínica precoce na população incluída na análise ITT microbiológica (n=391) foi de 90,7% com lefamulina versus 93,0% com moxifloxacina com uma diferença de -2,3%. [IC 95%: -8,2 a 3,6]

Em qualquer das análises realizadas, a diferença entre grupos foi sempre inferior a 10% pelo que se verificou a não-inferioridade do tratamento da lefamulina vs. moxifloxacina neste estudo.

Os principais eventos adversos mais frequentes foram os efeitos gastrointestinais: diarreia (12,2% no grupo da lefamulina e 1,1% no grupo da moxifloxacina) e náuseas (5,2% no grupo da lefamulina e 1,9% no grupo da moxifloxacina).

 

COMO POSSO APLICAR OS RESULTADOS AOS MEUS DOENTES?

As características da população do estudo é semelhante à população da prática clínica. No entanto, não é claro se estes doentes foram recrutados em ambiente de cuidados de saúde primários ou secundários, pelo que este factor pode ser importante relativamente à gravidade da situação clínica. Nos critérios de inclusão do estudo também é necessária a confirmação radiológica de pneumonia, sendo que este é um meio complementar de diagnóstico de acesso limitado em ambiente de cuidados de saúde primários.

Perante os resultados apresentados e ainda que tenham sido descritos mais efeitos adversos gastrointestinais neste grupo, a lefamulina será uma alternativa viável à terapêutica com moxifloxacina. A administração por via oral facilita o cumprimento do tratamento em ambulatório, conferindo maior conforto ao doente. Tendo em conta o problema global de resistências a antibióticos, este fármaco poderá tornar-se uma mais valia nas opções terapêuticas disponíveis.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Alexander, Elizabeth, et al. «Oral Lefamulin vs Moxifloxacin for Early Clinical Response Among Adults With Community-Acquired Bacterial Pneumonia: The LEAP 2 Randomized Clinical Trial». JAMA, vol. 322, n. 17, Novembro de 2019, pp. 1661–71. jamanetwork.com, doi:10.1001/jama.2019.15468.

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