Intervenções para reduzir o risco cardiovascular – Notas de Evidentia #122019

por Joana Pinto Pereira

Qual a pergunta?

Que intervenções podem reduzir o risco cardiovascular?

O que fizeram?

Revisão sistemática de guidelines prévias, metanálises, bases de dados nacionais (EUA), ensaios clínicos, estudos de coortes e observacionais publicadas entre 2010-2018, referentes a 9 tópicos relacionados com Risco Cardiovascular (RCV): cálculo de RCV, dieta, atividade física, obesidade e perda ponderal, DM tipo 2, colesterol, hipertensão, cessação tabágica e uso de Aspirina. Revisão feita por um comitée incluindo várias especialidades médicas, enfermeiros, investigadores em saúde e representantes legais (5 revisores oficiais da ACC e AHA + 23 revisores individuais)

O que recomendam?

A prevenção cardiovascular (CV) deve ser feita de forma individualizada, envolvendo o doente e a família, e tendo em conta determinantes sociais que afetam a saúde.

A multidisciplinaridade na abordagem da doença CV é fundamental sobretudo em meios desfavorecidos e a medida preventiva mais importante é a promoção de estilos de vida saudáveis. O RCV pode ser calculado por diversas ferramentas (recomendam o ASCVD Risk Estimator mas na Europa temos o SCORE), devendo ser feito sistematicamente entre 40-75 anos e a cada 4-6 anos dos 20 aos 39 anos.

Deve promover-se uma dieta mediterrânea privilegiando o consumo de vegetais, fruta, cereais, peixe e gorduras insaturadas, e reduzindo o sal, carnes vermelhas, gorduras trans, hidratos e bebidas açucaradas.

Todos os indivíduos devem manter atividade física regular com o objetivo mínimo de 150min/semana de exercício aeróbio moderado ou 75min/semana de exercício intenso, iniciando gradualmente até atingir os objetivos. Atividade inferior parece ter também benefício, assim como exercícios de resistência (ainda que não reduzam RCV).

O IMC deve ser calculado sistematicamente e os indivíduos com obesidade/excesso de peso devem ser aconselhados para a perda ponderal, delineando-se um plano dietético com modificação de hábitos e restrição calórica. Nestes indivíduos é especialmente importante a avaliação do perímetro abdominal, concomitantemente.

Perdas de 5-10% do peso mostraram melhorar a TA, DM, o controlo glicémico e perfil lipídico. Intervenção farmacológica e cirúrgica podem ser equacionadas individualmente.

Indivíduos com DM 2 devem manter bom controlo glicémico e exercício regular (mesmos alvos da restante população).

O tratamento com estatinas depende do risco: risco intermedio pode ponderar-se estatina de potência intermedia para diminuir o LDL ≥30%*; se risco elevado, recomendam diminuir LDL ≥50%*; se LDL ≥190mg/dL recomendam usar a dose máxima tolerada de estatina.

Diabéticos (40-75anos), independentemente do RCV devem fazer estatina com potência moderada, a não ser que estejam presentes múltiplos fatores de risco CV, devendo aqui optar-se por estatina de elevada potencia, para objetivo de redução de LDL ≥50%*.

Em qualquer idade, na hipercolesterolemia familiar deve fazer estatina desde o diagnóstico ou se doença CV prematura na família e LDL ≥160mmHg. Após os 75 anos a decisão deve ser ponderada caso a caso.

A primeira intervenção para controlo tensional é a mudança dos estilos de vida (perda ponderal, dieta, reduzir consumo de sal e álcool, atividade física e suplementação com potássio). Se RCV moderado e TAs média ≥130mmHg ou TAd média ≥80mmHg deve-se iniciar antihipertensor em prevenção primária. Com ou sem HTA confirmada, DM ou doença renal crónica, o alvo de TA é 130/80mmHg*. Se o RCV for inferior a moderado, o alvo é 140/90mmHg*. Se HTA já conhecida o alvo deve ser 130/80mmHg*.

A avaliação e aconselhamento para a cessação tabágica deve fazer-se sistematicamente, assim como para a evicção de consumo passivo. Devem existir nos serviços, equipas especializadas em cessação tabágica. Os melhores resultados foram conseguidos com uma intervenção combinada de alteração comportamental + farmacológica.

O uso de AAS (75-100mg id PO) em prevenção primária deve ser considerado nos indivíduos com elevado RCV e baixo risco hemorrágico, se risco hemorrágico presente ou idade acima dos 70 anos, não está preconizado o uso de AAS.

*NOTA: alertamos para o facto da definição destes valores alvo de tratamento serem definidos por consenso de peritos.
Há evidência que, nos idosos, apontar para valores de TA muito baixos pode ser prejudicial.

Referência

https://doi.org/10.1016/j.jacc.2019.03.010

Arnett, Donna K., et al. «2019 ACC/AHA Guideline on the Primary Prevention of Cardiovascular Disease». Journal of the American College of Cardiology, Março de 2019. Crossref, doi:10.1016/j.jacc.2019.03.010.

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2 thoughts on “Intervenções para reduzir o risco cardiovascular – Notas de Evidentia #122019

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    1. Professor o seu comentário ficou truncado mas quase que sei em que direccção ele vai.
      Duas notas:
      1. obrigado por ler e depositar esperanças em nós! 🙂
      2. quase que intuo que a sua desilusão vem do facto de não criticar as recomendações que falam de cálculos de cálcio coronários e que apontam para alvos de LDL e de TA que são muito pouco evidence-based. O intuito com este artigo foi de resumir aquelas que são recomendações das instituições americanas. Admito que podiamos ter sido mais incisivos na componente da crítica às mesmas.
      3. Mas estamos cá para melhorar e as suas críticas são sempre construtivas e necessárias pelo que não desista já. 🙂

      Abraço!

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