Rastreio de cancro do pulmão com TC de Tórax: será útil? – Notas de Evidentia #172019

Por Francisco Sousa Lopes

Pergunta clínica:

Será o benefício maior que o risco na realização de rastreio de cancro de pulmão através de TC de Tórax, comparativamente a um rastreio com Raio-X de Tórax, em pessoas entre os 55 e 80 anos de idade com história de hábitos tabágicos?

A reter:

Decisão difícil. O rastreio de cancro de pulmão com TC de Tórax em pessoas entre os 55 e 80 anos de idade com história de hábitos tabágicos evita 3 mortes por cancro entre cada 1000 pessoas rastreadas, comparativamente a um rastreio com Raio-X de tórax. Por outro lado, leva também, no cenário mais optimista, a 4 casos de diagnóstico de cancros de pulmão que nunca iriam causar dano (sobrediagnóstico), a 180 exames de rastreio suplementares e a 13 casos de procedimentos invasivos em pessoas que não têm cancro de pulmão, por cada 1000 pessoas rastreadas.

Porque é que é importante?

A pergunta é importante pois leva-nos a pesar os riscos e benefícios inerentes a um rastreio deste tipo, de forma a podermos transmitir adequadamente aos utentes a melhor informação disponível baseada em evidência.

O que fizeram:

Análise de resultados baseados no US National Lung Screening Trial (NLST), acerca da evidência de redução de mortalidade por cancro de pulmão devido ao rastreio por TC de baixa dose realizada anualmente durante 3 anos, seguida de follow-up durante 4 anos, versus rastreio por Raio-X de tórax.

Quem pagou?

INTEGRAL project e Cancer Research UK

O que concluem/ recomendam:

Em cada 1000 pessoas rastreadas 3 vezes ao longo de 3 anos, estima-se que 779 terão exames completamente normais; 180 irão necessitar de um exame de rastreio suplementar mas não terão cancro de pulmão, dentro desse grupo 13 pessoas sem cancro irão ser submetidas a procedimentos invasivos para descartar a hipótese de doença. Ainda assim, 0,4 pessoas (1 em cada 2500) irão sofrer uma complicação major resultante desses procedimentos invasivos e 0,2 pessoas (1 em cada 5000) morrerão de qualquer causa 60 dias após procedimentos invasivos. No total, 41 pessoas serão diagnosticadas com cancro de pulmão, sendo que dentro desse grupo, 4 casos de cancro correspondem a sobrediagnóstico pois nunca iria causar dano à pessoa dentro da sua esperança de vida expectável e 3 pessoas terão evitado a morte por cancro de pulmão, graças ao rastreio com TC comparativamente ao rastreio com Raio-X.

Qual a nossa análise:

O artigo ajuda a explicar que rastreio através de TC de Tórax comparativamente com um rastreio com Rx Tórax, nesse grupo de risco descrito, pode evitar 3 mortes pela doença em cada 1000 pessoas rastreadas, mas está também associado a efeitos negativos como casos de sobrediagnóstico, exames de rastreio suplementares, procedimentos invasivos e possíveis complicações, factos que devem também ser comunicados, quando se apresenta essa possibilidade de rastreio aos doentes. Deve ainda ser tido em conta que o facto deste rastreio ser proposto num grupo que apresenta um maior risco de doença, poderá ter levado a um maior número de mortes evitadas, sendo expectável que se o mesmo rastreio fosse aplicado à população em geral (incluindo pessoas mais jovens ou não fumadoras), o número de mortes evitadas seria menor e o rastreio faria menos sentido. Devemos ainda considerar que a estimativa de sobrediagnóstico usada foi de 18.5% o que é uma estimativa bastante conservadora atendendo a outras. O nosso colega Bruno Heleno publicou recentemente uma análise de um estudo dinamarquês em que estimam sobrediagnóstico 67.2% associado ao rastreio do cancro do pulmão. ligação aqui

Vale a pena ainda ler o editorial sobre o assunto que o Bruno Heleno e o David Rodrigues escreveram sobre o assunto há uns anos atrás. ligação aqui

Referência bibliográfica:

Robbins, Hilary A., et al. «Benefits and Harms in the National Lung Screening Trial: Expected Outcomes with a Modern Management Protocol». The Lancet Respiratory Medicine, vol. 0, n. 0, Maio de 2019. http://www.thelancet.com, doi:10.1016/S2213-2600(19)30136-5.

https://www.thelancet.com/journals/lanres/article/PIIS2213-2600(19)30136-5/fulltext

Deixamos aqui a ferramenta de apoio à decisão que consta no artigo original em inglês. Parece-nos um bom exemplo de ferramenta útil para decisão informada e partilhada:

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