Polifarmácia: Será que a revisão da medicação dirigida aos objectivos pessoais do doente leva a melhor qualidade de vida e diminui o número de problemas de saúde? Ensaio DREAMeR – Notas de evidentia #192019

Por Marina Teixeira

Pergunta Clínica

Em idosos com mais de 70 anos e com pelo menos 7 fármacos em medicação crónica, a revisão clínica da medicação tem impacto nos objetivos pessoais de qualidade de vida relacionados com a saúde?

A Reter

Neste estudo foi efetuada uma revisão da terapêutica de pessoas com mais de 70 anos e com mais de 7 medicamentos como medicação crónica, tendo em conta a sua qualidade de vida e problemas relacionados com a saúde identificados pelo idoso. Apesar de terem sido envolvidos Médicos de Família, a intervenção foi efetuada por farmacêuticos em farmácias comunitárias, sendo que quer o farmacêutico, quer o participante no estudo sabiam a que grupo este último estava alocado. Em relação aos resultados, nas escalas utilizadas para medir a qualidade de vida houve diferença, ainda que pequena, na medição através da escala EQ-VAS e diminuição do número de problemas de saúde com impacto moderado a grave. Na avaliação pela escala EQ-5D-5L e no número total de problemas de saúde, a diferença não foi estatisticamente significativa.

Qual a relevância dessa pergunta?

Apesar de existir evidência de que a revisão da medicação reduz intercorrências relacionados com os fármacos, a evidência da sua tradução em bem-estar e qualidade de vida nas pessoas idosas é escassa ou inexistente.

Quem financiou?

Royal Dutch Pharmacists Association (Associação Holandesa dos Farmacêuticos); Service Apotheek (franchise de farmácias comunitárias)

Que tipo de pergunta fez este estudo?

Tratamento – Ensaio clínico aleatorizado.

Considerações metodológicas

Realizou-se um ensaio clínico, onde doentes com idade ≥70 anos a realizar ≥ 7 fármacos em toma crónica foram aleatorizados em bloco para receber os cuidados habituais ou realizar uma revisão clínica da medicação. Pretendia-se avaliar a qualidade de vida associada a saúde e número de problemas de saúde após 6 meses. Os participantes e clínicos não estavam cegos, dada a natureza da intervenção, mas o avaliador de resultados estava cego. Uma vez que houve alguma perda de follow-up (83,8% dos participantes reportaram dados aos 6 meses), os autores realizaram uma análise por intenção de tratar e por protocolo. Não foi tida em conta a complexidade da intervenção, nomeadamente a que aspecto da intervenção efetuada se poderiam dever os resultados encontrados.

Quais são os resultados?

Em relação às escalas utilizadas para medir a qualidade de vida relacionada com Saúde:

  • Na EQ-VAS houve uma diferença média de +3.4 pontos em 6 meses (95% IC 0.94 a 5.8), estatisticamente significativa.
  • O número de problemas de saúde com impacto moderado a grave na vida diária a diferença média foi de -0.34 em 6 meses comparado com o grupo controlo (95% IC -0.62 a -0.044), estatisticamente significativa.
  • Na EQ-5D-5L houve uma diferença média de -0.0022 em 6 meses (95% IC – 0.024 a 0.020), diferença não significativa.
  • Para o número total de problemas de saúde a diferença média foi de -0.30 em 6 meses quando comparado com o grupo controlo (95% IC -0.64 a 0.027), diferença não significativa.

Não houve diferença significativa entre a análise por intenção de tratar e a por protocolo.

Como posso aplicar estes resultados aos meus doentes?

O modelo utilizado neste estudo não é a norma em Portugal, uma vez que não existe um farmacêutico oficialmente responsável por gerir a medicação do doente. Neste contexto, esta intervenção não seria fácil de aplicar globalmente. Ainda assim, existem já unidades de saúde que promovem reuniões com as farmácias locais para estimular a articulação entre estes grupos profissionais. Talvez seja um primeiro passo para um dia podermos melhorar a nossa realidade.

É importante também lembrar que a intervenção de revisão terapêutica envolvendo as expetativas e problemas identificados pela pessoa é complexa, não esquecendo o risco de viés (embora difícil de evitar dada a natureza desta intervenção) presente neste ensaio clínico, devido ao facto de doentes e profissionais de saúde não estarem cegos para a intervenção realizada em cada participante.

Referência bibliográfica:

Verdoorn, Sanne, et al. «Effects of a Clinical Medication Review Focused on Personal Goals, Quality of Life, and Health Problems in Older Persons with Polypharmacy: A Randomised Controlled Trial (DREAMeR-Study)». PLOS Medicine, editado por Aaron S. Kesselheim, vol. 16, n. 5, Maio de 2019, p. e1002798. DOI.org (Crossref), doi:10.1371/journal.pmed.1002798.

https://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.1002798

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