A desigualdade sócio-económica tem efeito na mortalidade prematura? – Notas de Evidentia #062020

Por Samuel Gomes

Pergunta Clínica

Qual o efeito da desigualdade socioeconómica na mortalidade prematura na população de Inglaterra?

Veredicto Evidentia Médica

A desigualdade socioeconómica é responsável por cerca de um terço da mortalidade precoce (antes dos 75 anos), sendo que quanto maior for o grau de desfavorecimento, maior é o número de mortes precoces e maior é o número de anos perdidos precocemente.

Qual a relevância dessa pergunta?

As pessoas de estratos socioeconómicos mais baixos (conforme aferido pela profissão, qualificações, salário, riqueza, local de residência) têm uma maior probabilidade de morrer em idade mais jovem em comparação com pessoas em estratos socioeconómicos mais elevados. Tem-se verificado a manutenção, ou mesmo o aumento, da distância entre os pólos sociais, apesar de reduzir a desigualdade ser uma política de saúde central. São necessárias formas de medição simples para comunicar a escala da desigualdade aos decisores políticos e à população, sendo que este artigo mostra uma forma de avaliar a mortalidade usando uma escala de desigualdade agregada e partindo de uma base populacional.

Quem financiou?

National Institute of Health Research; Wellcome Trust.

Que tipo de pergunta faz este estudo?

Malefício.

Considerações metodológicas

Os autores recolheram os dados da mortalidade entre as idades 0 e 74. Depois, partiram da divisão do território inglês em pequenas áreas com cerca de 1500 habitantes e, para cada uma, calcularam os “Index of Multiple Deprivation 2015” (IMD), que é uma medida de desigualdade social. Tem em conta o rendimento, emprego, níveis de educação, criminalidade, saúde , disponibilidade de serviços e ambiente local. Assim, conseguiriam dividir a população britânica em decis com índice de desigualdade crescente, comparando a taxa de mortalidade e anos de vida perdidos prematuramente do decil com menor grau de desigualdade com os seguintes, de grau de desigualdade superior.

As características das pessoas nos diferentes decis não foram comparadas entre eles para aferir a sua homogeneidade. Tendo em conta o tipo de estudo isto é perfeitamente aceitável e, até, desejável, uma vez que a privação socioeconómica é, por si própria, o fator causador de heterogeneidade entre grupos, sendo precisamente a consequência disso que se pretende avaliar. Forçar grupos de comparação homogéneos limitaria, por isso, a interpretação dos resultados e, a meu ver, a sua utilidade.

Partindo de uma base populacional, os investigadores não tiveram em conta comunidades de imigrantes ou de diferentes etnias nem fizeram distinção entre áreas rurais e citadinas. Com efeito, os primeiros podem ter diferentes hábitos (de exercício físico, alimentares) e património genético que condicionem um uma relação diferente de determinantes de saúde com o nível de desigualdade, em comparação com os nativos ingleses. Os segundos, ao condicionarem, por exemplo, diferentes tipos de exposições ambientais em diferentes escalões socioeconómicos, podem também contribuir para algum confundimento, uma vez que foram avaliados em conjunto. Os autores não tiveram estas diferenças em conta durante o tratamento dos dados, corrigindo a sua análise apenas para a idade e género entre os diferentes grupos.

Quais são os resultados?

  • Homens
  • Taxas de Mortalidade
  • Maior privação: 770/100000
  • Menor privação: 280/100000
  • Razão de Risco: 2.75
  • Proporção de mortes atribuíveis à desigualdade: 37%
  • NNH 204
  • Mulheres
  • Taxas de Mortalidade
  • Maior privação: 470/100000
  • Menor privação: 189/100000
  • Razão de Risco: 2.5
  • Proporção de mortes atribuíveis à desigualdade: 33%
  • NNH 356

Mortes prematuras atribuíveis à desigualdade (proporção): 35.6% (IC 95% 35.3-35.9)

Anos de vida perdidos por morte prematura devida à desigualdade (proporção): 36.2%

NNH global 130

Nota: o desenho do estudo pode limitar a validade dos valores calculados de NNH.

Quanto mais elevado for o índice de desigualdade, mais elevado é o número de mortes prematuras e maior é o numero de anos de vida perdidos por mortes prematuras.

Tendo em conta que os autores estão a trabalhar com toda a população inglesa, o facto de não apresentarem intervalos de confiança para as estimativas não é muito relevante, uma vez que o viés de seleção não existe. As estimativas são, efetivamente, características da população em estudo. Quando comparado o grupo com menos privação com o grupo com mais privação, verifica-se uma taxa de mortalidade 2.5 vezes superior (ligeiramente maior para o sexo masculino) no grupo mais desfavorecido. Este efeito é “dose dependente”, ou seja, verificam-se taxas de mortalidade mais altas nos grupos com maior privação. A desigualdade socioeconómica está associada a pouco mais de um terço das mortes prematuras e dos anos de vida perdidos por morte prematura em Inglaterra.

Como posso aplicar os resultados aos meus doentes?

Devemos ter em conta que este estudo foi feito em Inglaterra, pelo que os seus resultados não são diretamente extrapoláveis para outras realidades. No entanto, será licito assumir algum grau de concordância se estivermos a discutir países com um grau de desenvolvimento e cultura semelhantes, como será o caso de Portugal. Este estudo apenas se focou na mortalidade, mas seria interessante pensar também em termos de morbilidade, incapacidade e, de um ponto de vista de economia para a saúde, em termos de gastos em saúde. Os autores também tentaram perceber que patologias estariam mais associadas ao excesso de mortalidade atribuível à desigualdade socioeconómica, identificado doenças relacionadas com consumo de tóxicos, como doença hepática e a DPOC a encabeçar a lista, o que não deixa de ser um ponto importante de reflexão.

Referência Bibliográfica

Lewer D, Jayatunga W, Aldridge RW, Edge C, Marmot M, Story A, et al. Premature mortality attributable to socioeconomic inequality in England between 2003 and 2018: an observational study. The Lancet Public Health 2020;5:e33–41. https://doi.org/10.1016/S2468-2667(19)30219-1

https://www.thelancet.com/pdfs/journals/lanpub/PIIS2468-2667(19)30219-1.pdf

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *