Evidentia da semana #422019

Destaque

Já conhece o nosso podcast? Vamos ter novo episódio sobre guidelines nos próximos dias, fiquem atentos.

Esta semana evidência relevante sobre hipertensão, suplementação com vitamina D e Cálcio, revisões de tema muito interessantes, multimorbilidade e desprescrição e um artigo interessantíssimo sobre comunicação médica simplificada com recurso à banda desenhada para explicar Medicina. Vamos lá:

Revisões sistemáticas

Hipertensão: diuréticos melhores que IECAs como opção de primeira linha em monoterapia. 
https://t.co/rCLNq63qvy #revisãosistemática

Suplementação com Vitamina D e Cálcio não altera o risco de fractura de pessoas idosas. A evidência claramente favorece a não utilização destes suplementos 
https://t.co/6vfzVnARKX #revisãosistemática

Estudos primários

Hipertensão: prova robusta que devemos tomar pelo menos 1 dos anti-hipertensores à noite 
https://t.co/zyV8jocoxE #experimental

Apesar dos observacionais sugerirem uso preventivo de b-bloq em pessoas com DPOC moderada a severa, ensaio clinico não confirma. Metoprolol em DPOC moderada-severa não evita exacerbações e pode aumentar hospitalizações 
https://t.co/C8sjZ2IGgP #experimental

Episiotomia: em partos vaginais instrumentalizados associou-se a menos lesões do esfíncter anal mas… em partos vaginais normais aumenta o risco dessas lesões. 
https://t.co/4ERA0F6VGJ #experimental

Estudo correlaciona prática de futebol profissional no passado com maior risco de ocorrência de doenças neurodegenerativas. Calma!! estudo observacional 
https://t.co/W1FsZVR95t #observacional

Critérios LESS-CHRON para desprescrição em pessoas com multimorbilidade 
https://t.co/e3iXuNJA7e #observacional

Diabetes entra para o top 10 das principais causas de morte a nível global. Evolução 2007>2017 
https://t.co/rMpkyEOrHy #saúdepública

Genética: nova técnica tem o potencial de corrigir 89% das imensas variantes genéticas associadas a doenças. Engenharia genética ao virar da esquina Gattaca… 
https://t.co/e2xbqVOG3q #genética

Intolerância à lactose – revisão 
https://t.co/vyVPzlpewy #revisãonãosistemática

Mycoplasma genitalium – revisão.
https://t.co/sJGmol0pFm #revisãonãosistemática

Gestão da dor com opióides – revisão 2019-2020 
https://t.co/J8VeBJUq04 #revisãonãosistemática

Eczema nas crianças: que emoliente usar? >> aquele com o qual se der bem 
https://t.co/vRkKTzwcXU #revisãonãosistemática

DPOC: boletim terapêutico andaluz resume guidelines. Pontos chave
https://t.co/bsFyTslrGy #educação

Enfarte agudo do miocárdio da parede posterior. Revisão com caso clínico 
https://t.co/y22pW0Wyr4 #casoclínico

Desprescrição em pessoas idosas. Uma revisão do tema em modo reflexão 
https://t.co/34scLAKU9I #opinião

Medicina gráfica. Nova forma de passar mensagens médicas: o exemplo dos medicamentos para o estômago 
https://t.co/V53HAmTAlm #educação #medicinagráfica


Queres saber qual a base teórica para organizarmos a literatura desta maneira? Escrevemos um artigo sobre isto. [download pdf aqui]

Evidentia da semana #412019

Destaque

O que é a Medicina Baseada na Evidência – respondendo ao Dr. Juan Gervás a propósito de uma discussão online

Atividade física e mortalidade: qual a relação? a análise na rúbrica Notas de Evidentia

Os artigos de opinião e editoriais desta semana são muito relevantes.

Já conhece o nosso podcast?

Recomendações elaboradas sistematicamente

Disfunção-eréctil: inibidores da 5-fosfodiesterasa – o título em inglês é só genial Taking a hard look at the evidence: Phosphodiesterase-5- inhibitors in erectile dysfunction 
https://t.co/tvqanOcQ2G #revisãoEBM

Revisões sistemáticas

Agitação na Demência: intervenções não farmacológicas parecem ser mais eficazes que as farmacológicas. Sim sim, escrevi bem. 
https://t.co/ALbUopPv3I #revisão-sistemática

Andamos a meter quantidades imensos de dados pessoais de saúde online com pequeno ou nenhum benefício. 
https://t.co/9IyhL1o2nN #revisão-sistemática

Estudos primários

Aconselhamento a pais de adolescentes via sms. Ensaio clínico. SMS com dicas para os pais melhora comunicação pais-filhos e sensação de competência parental. Interessante. Novas formas de chegar às pessoas. 
https://t.co/tW8TLGI3Nq #experimental

Lombalgia crónica > ensaio clínico:
[1] ibuprofeno+cafeína vs [2] ibuprofeno vs [3] placebo
resultados: [1]=[2] que pouco mais são que [3] a história natural da doença… 
https://t.co/AjZ7KEyEiw #experimental

Lombalgia (pode parecer estranho mas existia debate): antibióticos não ajudam > ensaio clínico com amoxicilina 3xdia durante 3 meses vs placebo. 
https://t.co/2zQsLpSYN1 #experimental

Avaliação de hemorragias digestivas baixas: realização urgente (<24horas) vs electiva (24 a 96h) de colonoscopia não revela diferenças nos dias de internamento nem em 2º episódio de hemorragia. 😑 https://t.co/3kfHInbNXP #experimental

Ecografia obstétrica do terceiro trimestre em gravidezes de baixo risco. Ensaio clínico holandês diz-nos que não tem utilidade clínica. Ui… 
https://t.co/lRDYCIMJBj #experimental

Acessibilidade a cuidados de saúde primários convenientes diminui 5 a 20% idas a serviços de urgência. Proximidade e possibilidade de atendimento sem agendamento essenciais. via @ernestob 
https://t.co/QYBtc1oAoN #observacional

O que acontece quando nas análises ou exames aparece uma alteração que não tem significado clínico ou ele é incerto? Todos sofrem! Doente e Médico 
https://t.co/q2bn5Je7Eg #observacional

Multimorbilidade – escala EPADI validada para avaliar fragilidade em doentes crónicos 
https://t.co/ihA53CHx4s #observacional

Variações no peso e mortalidade. Estudo observacional (!!) associa: – obesidade estável em adulto; ganho de peso de jovem para adulto; perda de peso de adulto para idoso a maior risco de mortalidade. 
https://t.co/rb2p0gfAaR #observacional

Vale a pena ler o editorial do Prof. Jaime Correia de Sousa na RPMGF @apmgf sobre os últimos 20 anos da reforma dos cuidados primários em Portugal. https://t.co/M0MWAOgAEg #Editorial

Vamos assumir que acreditamos que os bifosfonatos fazem algo de útil, então nesse caso > resumo de utilização desta classe farmacológica em mulheres pós-menopausa 
https://t.co/HK1snSM1P1 #revisãonãosistemática

Lípidos I – NEJM publica revisão dos tratamentos anti-lípidos para prevenção de doença cardiovascular. Depois disto, ler o post seguinte sff 
https://t.co/dZqU4dYp8m #revisãonãosistemática

Lípidos II – a propósito das recentes guidelines ESC, análise a como se transformam pessoas saudáveis em potenciais doentes e como transformar o NNT das estatinas de 40 (grupo alto risco) para 400 (homo sapiens que respire) 
https://t.co/y0YzlezVRq #opinião

Suicídio entre jovens de 18-24 aumenta de 6,8 para 10,6% em 10 anos. Mais do que nunca as políticas de saúde devem olhar para a saúde mental 
https://t.co/cMKwQAIIYG #saudepública

“Medical reversals” ou intervenções médicas de duvidoso valor compiladas a partir de ensaios clínicos publicados nos principais jornais médicos. Para ler com atenção. 
https://t.co/84gDLr81A5 #qualidade

Ioannidis sabe meter o dedo na ferida: discutimos demasiado assuntos menores e a negligenciamos os principais problemas de saúde pública. Análise baseada nos artigos com maior divulgação no altmetric. https://t.co/u8cyvAIYYG #opinião


Queres saber qual a base teórica para organizarmos a literatura desta maneira? Escrevemos um artigo sobre isto. [download pdf aqui]

Evidentia da semana #412019

Destaque

O que é a Medicina baseada em Evidência – respondendo ao Dr. Juan Gérvas

O Rastreio do Cancro da Mama deve incluir Ressonância Magnética? – Notas de Evidentia #262019

Recomendações elaboradas sistematicamente

Hipertensão arterial: diferenças nas guidelines ESC/ESH 2018 e NICE 2019. O tempo acaba por introduzir algum bom senso. 
https://t.co/Jzw94JpC8g #recomendações

Revisões sistemáticas

Anti-inflamatórios não esteróides para hemorragias menstruais abundantes. Algumas limitações metodológicas mas parece que ajudam https://t.co/twKXiq8MNl #revisãosistemática

Cessação tabágica: parar abruptamente ou reduzir gradualmente? Revisão da cochrane diz que não há diferença. O importante é parar de fumar. https://t.co/e6aUm8Z57D #revisãosistemática

Estudos primários

Diabetes: semaglutido oral vs empagliflozina em diabetes não controlada com metformina. Semaglutido baixa 0.6% mais A1c – variável resultado orientada para doença e não para doente – mas causa mais efeitos adversos. Meeh.. 
https://t.co/eAwnLRHXSZ #experimental

Orientar decisões médicas pelos objectivos de saúde dos doentes traduz-se em menor carga de tratamentos, mais medicação descontinuada, menos exames de diagnóstico. 
https://t.co/OSiTH9fTri #observacional

Esteatose hepática e não alcoólica NÃO associada a maior incidência de enfarte agudo do miocárdio ou AVC. Risco CV igual aos outros. Coorte com 18 milhões de europeus. 
https://t.co/Rjcwt8tUlX #observacional

Avaliação geriátrica abrangente com o Multidimensional Prognostic Index prediz eficazmente eventos adversos e contactos com o médico de família no ano seguinte. Interessante que a experiência do médico também o faça! 
https://t.co/z7iZi20M5N #prognóstico

“Desperdício no sistema de saúde” avaliado em 25% do custo de todo o sistema. Só em excessos de tratamentos e cuidados de baixo valor as estimativas de poupança atingem 28.6 biliões de dólares. 
https://t.co/h1IedDL8s9 #qualidade

Vaping – a moda dos cigarros electrónicos e o surto de doença respiratória nos Estados Unidos. Análise 
https://t.co/OrgBZ9A8Ei #opinião

Não há uma dieta universal que sirva para todos. E a inteligência artificial vai-nos ajudar a comer. Ou não… 
https://t.co/SVG3mask2A #opinião

Editorial do Lancet dedicado ao SNS português
https://t.co/kIdqHQi42y #opinião

Fragilidade – implicações para a prática clínica e saúde pública. Série de artigos no Lancet 
https://t.co/3XxCg7Sutq #opinião

Fragilidade II – oportunidades, desafios e direcções futuras. 
https://t.co/KpualAmRST #opinião

Doenças sexualmente transmissíveis – nunca se registaram tantos casos. Relatório do CDC americano 
https://t.co/1MFucmjZDm #saudepublica


Queres saber qual a base teórica para organizarmos a literatura desta maneira? Escrevemos um artigo sobre isto. [download pdf aqui]

O que é Medicina Baseada em Evidência? – respondendo ao Dr. Juan Gérvas

A propósito de uma publicação do Dr. Juan Gérvas na Acta Sanitaria, divulgada pelo próprio em redes sociais e listas de email escrevi uma resposta que gostaria de partilhar.

Nota prévia: os textos do Dr. Gérvas marcaram-me profundamente ao longo da minha carreira médica. Revejo-me em muita da argumentação, não toda é certo como este exemplo demonstra. Convém ler o artigo dele antes do meu para contextualizar. Está em causa a Medicina Baseada na Evidência.

Conflito de interesse: sou um dos coordenadores de cursos que ensinam leitura crítica de artigos científicos e coordeno um blog e podcast que promove a divulgação de artigos médicos potencialmente relevantes para a prática clínica. A faculdade paga-me pelos cursos. Pago do meu bolso e do meu tempo livre o site e podcast. Acredito que devemos ter em conta nas nossas decisões clínicas o melhor interesse do doente.

Concordo e discordo com o texto do Dr. Gérvas.

Concordo com:
Sempre tive um desconforto com a designação Medicina Baseada em Evidência. Manifestei-o inúmeras vezes dentro do nosso grupo da faculdade e publicamente. Gosto de pensar em medicina baseada e centrada nas pessoas. 
Desconforto que aparece porque lendo as origens se percebe que a designação “medicina baseada em evidência” foi criada como uma reacção a uma medicina baseada em decisões que corriam o risco de ignorar informação científica relevante proveniente da investigação clínica e demasiado centradas naquilo que eram as opiniões de chefes de serviços e directores clínicos. O primeiro livro do Sackett que lançou os fundamentos da MBE designava-se Clinical Epidemiology: A Basic Science for Clinical Medicine; Ele começou por criar uma rotina de discussão de literatura científica nas rondas que fazia com os seus alunos aos doentes internados. Discutiam dúvidas e tentavam esclarecê-las usando dados de estudos publicados. Mas Sackett era clínico, ele queria aplicar conhecimento nos doentes que via à frente dele. Tão clínico que quando sentiu que não sabia o suficiente de medicina decidiu com 49 anos repetir o internato (parte clínica pelo menos). Os discípulos do Sackett entusiasmaram-se e para sublinhar a importância que deveríamos incorporar informação proveniente da investigação clínica nas nossas decisões optaram pelo nome e sigla mais “sexy” EBM – Evidence Based Medicine. E aqui começam os algumas divergências. É que nenhum dos autores iniciais defende o uso cego dessa evidência nos doentes sem ter em conta uma série de condicionantes na decisão como contexto da decisão, recursos disponíveis, valores e preferências dos doentes, competências educacionais da dupla médico-doente, etc. Muito menos creio que estava no espírito do Sackett a criação de indicadores de desempenho baseado em variáveis intermédias subrrogadas (surrogate) de uma qualquer condição clínica. Isso já é obra da aplicação de um pensamento industrial e mecanicista da medicina do século XXI. O problema agudiza-se quando verificamos que para a grande maioria das decisões que fazemos no dia a dia não temos “evidência” directamente aplicável. Os nossos doentes têm multimorbilidade, têm polifarmácia, têm contextos sociais, familiares, pessoais que os tornam essencialmente diferentes daqueles inseridos na maioria dos ensaios clínicos. Ensaios esses que em muitos casos estão profundamente mal desenhados e pior executados mas que muitas vezes passam para guidelines mal construídas e pior, para algoritmos de decisão e indicadores de desempenho que têm tudo para andar a fazer mais mal que bem como Ioannidis e outros excelentemente descrevem.

Dito isto, a discordância:
Discordo da definição de MBE implícita no texto do Dr. Gérvas, que parece que a define como: 
1. evidência que apenas estuda eficácia; 2. aplicada mecânica e cegamente. Por partes:
1. Diz que “The EBM says nothing about the “landscapes”, those mental images that are made by the clinical doctor and the patient, and their families, about the health intervention and its possible consequences.” Mas pode dizer. Também podemos investigar isto. Nós, médicos de família fazêmo-lo melhor que ninguém. É este estudo individual com cada um dos nossos doentes que nos torna verdadeiramente médicos. E existem fantásticos estudos qualitativos que também eles nos ajudam a criar estas paisagens. Parece estar implícito no texto do Dr. Gérvas que a MBE se resume a resultados de ensaios clínicos ou estudos observacionais para estudar perguntas de eficácia. Mas a evidência é mais que isso. Diferentes perguntas requerem diferentes desenhos. A pergunta “porquê?” nunca será respondida com ensaio clínico. Perguntas de prognóstico, diagnóstico, malefício, requerem outros desenhos. É certo que isto apenas acrescenta “conhecimento” e nada sobre as “paisagens” dos doentes concretos que temos à frente. Mas, não só a evidência é mais que isso como a “filosofia” MBE é mais a aplicação cega desse conhecimento. Cabe a cada um de nós como médicos e como doentes saber interpretar, digerir, comunicar e colaborar com as pessoas que nos consultam de forma a que esse conhecimento possa contribuir para uma melhor paisagem. O que me leva ao segundo ponto.
2. vejo implícita na definição de MBE do Dr. Gérvas uma aplicação mecanicista e cega da evidência sem atender a outras variáveis como a experiência do clínico em usar recursos, estratégias comunicacionais, literacia e valores e preferências dos doentes para chegar a decisões verdadeiramente informadas e colaborativas (a forma como eu a vejo – em anexo o slide que uso). A forma como o Dr. Gérvas expõe a sua argumentação leva-nos a crer que a MBE é uma “intervenção” passível de ser mensurável e cujos efeitos podem ser isolados. Como se fosse um fármaco que todos podemos usar da mesma maneira. Não a vejo assim. Aproxima-se mais a uma atitude ou marco teórico de decisões (framework) do que a uma intervenção. Mas mesmo considerando-a uma intervenção ela entraria dentro daquilo a chamamos intervenção complexa, e a metodologia para estudar intervenções complexas não está ainda o suficiente madura para isolar efeitos de uma ou duas variáveis dentro de todo um sistema complexo. Veja-se a imensa literatura em intervenções para mudar comportamentos humanos como estilos de vida, cessação tabágica ou gestão de multimorbilidade. Não digo que não se possa fazer, certamente lá chegaremos e temos massa crítica entre nós que o permitirá alcançar, mas não estamos lá ainda. 
Consigo entender que seguir cegamente guidelines mal construídas e que basicamente promovem má prática médica pode ser prejudicial para as pessoas. Consigo entender que se gerou toda uma indústria à volta do assunto (COI declarado). Mas como responder à pergunta se faz mais mal que bem? como medir por exemplo a quantidade de profissionais de saúde que se tornaram mais cépticos sobre os benefícios de determinadas intervenções e por exemplo começaram a desprescrever medicamentos que faziam mal às pessoas e com isso salvaram umas quantas vidas ou deram mais qualidade de vida apenas porque decidiram incorporar recomendações de uma revisão sistemática bem feita? Como comparar com a quantidade de pessoas que morreram por fazerem antiarrítmicos no pós enfarte durante décadas quando tinhamos informação que isso era prejudicial para eles como nos revelou o ensaio CAST? Ou a utilização de estreptoquinase como antitrombótico no enfarte? entre inúmeras outras.
O Dr. Gérvas diz e bem que 
a / «if the final objective of EBM is to improve patients-populations’ health, do we have evidence of succeed in this objective?» No
b / is EBM harming patients-populations’ health? We do not know.
Justamente, mas não confundir ausência de evidência com evidência de ausência.
Portanto, assumir que a temos de abandonar MBE porque não a conseguimos medir e porque assumimos que ela faz mais mal que bem é a meu ver profundamente errado.

Temos prova de malefício porque há médicos e instituições a seguir algoritmos e guidelines que não fazem sentido. Sim. Mas o problema está na ferramenta e no utilizador, não na filosofia. Há pessoas que não sabem andar de carro e têm acidentes matando outras pessoas. Não quer dizer que o carro não seja uma boa ideia. E tal como o carro, a filosofia MBE vai evoluindo. As várias “ferramentas” têm tido evoluções tentando reconhecer a incerteza e a complexidade sublinhando a necessidade de decisões colaborativas. Veja-se o GRADE por exemplo: está bem claro que no melhor dos cenários temos uma recomendação baseada em ensaios clínicos robustos, com poucos viéses e magnitude de efeito substancial. Neste cenário, aquilo que o GRADE actualmente recomenda é que o painel de peritos faça uma recomendação forte, entendendo como tal uma recomendação que a maior parte dos médicos quer fazer e a maior parte dos doentes quererá seguir. Admite excepções, admite incerteza, dá lugar a uma decisão colaborativa. As próprias definições de decisões partilhadas e colaborativas (como Elwyn descreve) admitem essa incerteza e complexidade.

Em suma:
concordo que temos um problema com a utilização irracional da “evidência”; concordo que temos de controlar a forma como a indústria e outros actores usam o escudo da MBE para promover o lucro; concordo que temos de abandonar a criação de guidelines acéfalas e que não consideram a individualidade de cada pessoa. Concordo que aquilo que começou com um movimento de reacção ao status quo deve ele próprio olhar ao espelho e recuperar o espírito original da centralidade clínica no doente. Não posso concordar com o anúncio sensacionalista da morte da MBE pois esse sim, provavelmente faz mais mal que bem. Já bem nos bastam os outros ataques à medicina caracterizados pela completa ausência de fundamento científico.

Abraço 

Evidentia da semana #402019

Destaque

Podcast – temos 26 episódios de discussão de evidência em tópicos interessantes com alguma dose de (infeliz) humor.

Notas de Evidentia – os nossos colaboradores Catarina Santos e Samuel Gomes analisaram dois artigos. A não perder.
Será que existe associação entre a saúde cardiovascular ideal aos 50 anos e a incidência de demência? Um estudo de coorte com 25 anos de Follow-up
Existe associação entre o consumo de bebidas açucaradas e o risco de cancro em adultos?

Destaque nesta edição para as recomendações GRADE sobre consumo de carnes vermelhas e outra sobre o rastreio do cancro colon e recto. Recuperamos um artigo essencial de Ioannidis para entender a evidência na nutrição e damos a conhecer um novo antibiótico para pneumonias. Muitos ensaios clínicos esta semana. Vamos lá, muito para discutir certamente!

Recomendações elaboradas sistemáticamente (revisões sistemáticas incluídas)

Consumo de carnes vermelhas é mau para a saúde?

novos estudos e uma guideline. Conclusão geral: EVIDENCE CAOS! a prova científica à volta desta questão é muito má! Abro sequência: #evidencecaos
1 guideline:
Consórcio internacional NutriRECS emite guideline na qual recomenda que as pessoas mantenham os consumos que têm habitualmente porque a evidência não permite emitir parecer contra ou a favor. https://t.co/gNNRVq28ez
– As votações finais da recomendação foram problemáticas. Alguns autores defendiam diferentes interpretações dos dados >> problema dos estudos observacionais: – confundimento, confundimento, confundimento, – viés de memória – tortura de dados para que cantem o que quisermos

3 revisões sistemáticas que sustentam a guideline
Consumo de carne vermelha e processada e risco de mortalidade por todas as causas e resultados cardiometabólicos: rev. sistemática e metanálise de estudos de coorte https://t.co/F0eUYaFgu0
Padrões de consumo de carne vermelha e processada e risco de eventos cardiometabólicos e cancro: rev. sistemática de estudos observacionais de novo, qualidade da evidência muito baixa aponta para menor risco em padrões com menos consumo de carne https://t.co/swr9HoEw3n
Efeito de elevada vs baixa ingestão de carne vermelha em resultados cardiometabólicos e oncológicos: revisão sistemática de ensaios clínicos. menor consumo parece ser melhor mas a qualidade da evidência é muito baixa https://t.co/mxpcpQkWc8

Editorial e opinião:
Editorial do Annals of Internal Medicine a propósito disto tudo https://t.co/Asgh1GWqnA
notícia do nytimes a lembrar que o assunto das carnes vermelhas e clima é outra história https://t.co/rmFKU0dfT0
– Por fim, recupero este artigo do fantástico Ioannidis resume tudo. Basicamente, parem de confundir as pessoas com estudos observacionais e títulos sensacionalistas que alteram dramaticamente a relação das pessoas com a comida. https://t.co/9Vxek1eY5f

Rastreio do cancro do colo-rectal 

O BMJ publica uma série de recursos importantes. Abro nova sequência:

#guideline https://t.co/CDpmfk3dKM 

#artigo original – um estudo de modelagem no qual a partir do risco basal de ter cancro colo-rectal se calculam benefícios e malefícios das várias estratégias de rastreio https://t.co/AfoHkaL7U6 – Concluem que todas as estratégias de rastreio podem reduzir a mortalidade por cancro colo-rectal de forma semelhante. Malefícios também foram semelhantes

#Editorial – Então o que fazer? E é aqui que a coisa muda radicalmente (ver imagem). Em vez da habitual receita de “>50 anos levas com rastreio” recomendam decisões individualizadas baseadas no risco basal e partilhadas com os doentes – https://t.co/0r72T9X2ID

Os autores sugerem que “a maioria dos indivíduos informados com um risco a 15 anos de cancro colorretal de 3% ou mais provavelmente escolherá a rastreio, e a maioria dos indivíduos com risco abaixo de 3% provavelmente recusa rastreio.” Decisão informada e partilhada é o caminho

Por fim, a ferramenta que eles recomendam para calcular o risco e entender a evidência, a @theMAGICapp – que para quem não conhece é um projecto fantástico! – https://t.co/82SqZ4unwn


Hiperactividade e deficit de atenção: actualização da guideline da Academia Americana e Pediatria 
https://t.co/VKSBqCCao6 #recomendações

Estudos Primários

CAROLINA diz que no tratamento de diabetes tipo 2, linagliptina é não inferior a glimepirida no que a eventos cardiovasculares major diz respeito. Este terá um episódio do podcast num futuro breve. 
https://t.co/j1LCJi7R3W #experimental

Pneumonia: lefamulin não inferior a moxifloxacino na pneumonia adquirida na comunidade. Novo antibiótico que funciona. Muito importante. 
https://t.co/eJXFNXqItK #experimental

Fractura colo fémur: prótese total da anca vs hemiartroplastia. Diferenças na função e qualidade de vida clinicamente insignificantes entre ambas. 
https://t.co/Yzvdk2Wmox #experimental

Doença coronária esquerda: intervenção coronária percutanea vs bypass. Outcomes a 5 anos. Sem diferença na eficácia. 
https://t.co/zQH49GXsVD #experimental

Futebol comunitário para homens com cancro da próstata. Grupo que jogava à bola teve melhor saúde mental e perdeu mais kgs. No resto não houve diferença mas parece-me que os benefícios ultrapassam largamente os riscos 
https://t.co/ngd3MhMw07 #experimental

Diabetes e obesidade: doentes que fizeram cirurgia bariátrica tiveram menos risco de eventos cardiovasculares major. 
https://t.co/2zEijqoFPj #experimental

Diabetes + doença coronária estável + cateterismo prévio: ticagrelor + aspirina reduziu morte cardiovascular, enfartes do miocárdio e AVC à custa de mais hemorragias major. Equilibrio manhoso 
https://t.co/zroRadd526 #experimental

Cancro da mama. Decisões informadas? Mesmo com testes prévios, folhetos de informação a mulheres sobre cancro da mama são demasiado complexos. Caso inglês. 
https://t.co/pSHq71HiqL #qualitativo

No NEJM uma reflexão relevante sobre os rastreios oncológicos. Frase para moldura: “Sobrediagnóstico não é um acto propositado, é um infeliz efeito adverso da nossa exuberânte irracionalidade para detecção precoce [de cancros]”. https://t.co/zMtCYFEoSP #opinião

A tirania das guidelines e da medicina algorítmica 
https://t.co/IGXIATMHdy #opinião

O uso das redes sociais para manipular a opinião pública, relatório da universidade de Oxford. 
https://t.co/ZKjjmfXy0B #saúdepública


Queres saber qual a base teórica para organizarmos a literatura desta maneira? Escrevemos um artigo sobre isto. [download pdf aqui]

Evidentia da semana #392019

Destaque

Evidentia Médica em destaque no Congresso Nacional de MGF da APMGF. Obrigado a todos desse lado pelo apoio e reconhecimento.

Entretanto no podcast terminámos a saga Choosing Wisely com o quarto e último episódio dedicado ao programa. A não perder.

Recomendações elaboradas sistematicamente

Guideline CHEST para prevenção de AVC em doentes com FA. São “só” 60 recomendações. Resumo para breve.
https://t.co/qc1YbdSva2 #recomendações #grade

Revisões sistemáticas

Relação do peso e utilização de antidepressivos* ⬆5% | antipsicóticos ⬆7%
*buproprion dimuiu peso 
https://t.co/7VsZRskcZx #revisãosistemática

Estudos primários

Suplementar grávidas com ácidos gordos poli-insaturados n-3? NÃO 
https://t.co/zjJs59VaQ9 #experimental

5 días de nitrofurantoína provavelmente mais eficazes que dose única de fosfomicina em infecções urinárias. #artigorecuperado 
https://t.co/ZhvnGYN8zp #experimental

Programa de acompanhamento por sms + chamadas telefónicas de aconselhamento ajuda a perder peso. Autores defendem que pode ter interesse para populações difíceis de alcançar. 
https://t.co/wbLe2puBa2 #experimental

Mais indícios que terapia hormonal de substituição está associada a neoplasia da mamahttps://t.co/4jhNyB2cy4 #observacional
– Editorial a propósito: https://t.co/JClF0wtAiJ #opinião

Anafilaxia: adrenalina salva vidas (já sabíamos), anti-histamínicos podem ajudar (tb sabíamos); corticoesteroides parecem não ajudar e podem fazer mal (tb já sabíamos mas teimamos em não mudar) https://t.co/stNSQGxoX1 #observacional

Prevalência de medicação potencialmente inapropriada em idosos nos cuidados primários. Aplicaram os critérios de Beers em +700 pessoas. Assustadores 68,6% de prevalência. Estudo português! https://t.co/sQ8A5BrkVD #observacional

Vigilância mais intensiva em doentes que removeram adenomas na colonoscopia de rastreio sugerida como custo-efectiva. Adenomas de baixo grau > 5 anos; Adenomas de alto grau > 3 anos. Pressupostos difíceis de avaliar. 
https://t.co/Dva3aCodiX #modelagem

Melhorar a prática clínica numa instituição através da implementação de práticas baseadas na evidência. O caso da Kaiser. 
https://t.co/dW6gMP7lvi #qualidade

O declínio da empatia. Quem cuida do médico? Testemunho poderoso. 
https://t.co/06V8vJtDtj #opinião

Viver com a sombra do cancro nos genes capturado num testemunho desenhado. Poderoso. 
https://t.co/KGcW7u921a #opinião

Outros

Atrofia vulvovaginal: revisão clínica. Muito prevalente e pode ser extremamente incapacitante. Considerar riscos por favor, individualizar e partilhar decisões. 
https://t.co/X6PlJVuZGF #educação

Intolerância à lactose: revisão clínica 
https://t.co/UwyoA12c81 #educação

Promover actividade física na consulta. Dicas. 
https://t.co/zdiI9TUPLN #educação

Online, a informação médica não tem qualquer crivo e os primeiros resultados que aparecem podem ser de fontes nada credíveis. A BBC fez o teste no youtube onde promessas de curas de cancro aparecem muito facilmente https://t.co/PbcBlO5PtH #literacía

Investigação qualitativa. Porque o que importa é a pergunta de investigação. E algumas perguntas não podem ser respondidas com ensaios clínicos. p.ex: “porquê?” 
https://t.co/uTQJzW1GjY #metodos

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