Existem microplásticos nas fezes dos humanos? – Notas de Evidentia #302019

Por Ana Rita de Jesus Maria

PERGUNTA CLÍNICA

Existem microplásticos em fezes de humanos?

A RETER

O impacto das alterações ambientais na saúde está na ordem do dia. Este estudo sugere a necessidade de intensificar a investigação sobre a ingestão de microplásticos e o potencial efeito na saúde humana. O impacto das alterações climáticas na saúde está a levantar cada vez mais acções de mudança em numerosos países, que se reflectem não apenas nas linhas de investigação: https://www.c40.org/press_releases/good-food-cities

No Canadá, mais de 300,000 profissionais de saúde, incluindo o College of Family Practice, defendem este caminho de mudança – https://cape.ca/wp-content/uploads/2019/10/Call-to-Action-Oct.-2019.pdf

QUAL A RELEVÂNCIA DESSA PERGUNTA?

Os microplásticos estão disseminados em diversos ambientes naturais. A ingestão de microplásticos foi descrita em organismos marinhos, a partir dos quais essas partículas entram na cadeia alimentar, e consequentemente, podendo ocorrer a ingestão involuntária de microplásticos por humanos.

QUEM FINANCIOU?

Nenhuma fonte de financiamento.

QUE TIPO DE PERGUNTA FAZ ESTE ESTUDO?

Malefício.

CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS

Não é feita comparação entre 2 grupos (exposto e não exposto). Trata-se de uma série de casos prospectiva com reduzida amostra (n=8 participantes). É um estudo muito pequeno, de caráter exploratório, que abre uma linha de investigação sobre esta nova realidade e os seus efeitos sobre a saúde.

QUAIS SÃO OS RESULTADOS?

Não havendo uma medida de efeito em relação ao factor em estudo, os resultados são apenas descritivos. Todas as 8 amostras de fezes estudadas apresentaram um resultado positivo para microplásticos. Foi identificada uma mediana de 20 microplásticos (tamanho de 50 a 500 µm) por 10 g de fezes humanas. Foram detectados 9 tipos de plásticos, sendo o polipropileno e o tereftalato de polietileno os mais abundantes.

COMO POSSO APLICAR OS RESULTADOS AOS MEUS DOENTES?

O estudo incluiu apenas 8 participantes, e cada um forneceu apenas 1 amostra. A origem e o destino dos microplásticos no trato gastrointestinal não foram investigados. Foram detectados vários microplásticos nas fezes humanas, sugerindo ingestão inadvertida a partir de diferentes fontes.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Schwabl, Philipp, et al. «Detection of Various Microplastics in Human Stool: A Prospective Case Series». Annals of Internal Medicine, vol. 171, n. 7, Outubro de 2019, p. 453. DOI.org (Crossref), doi:10.7326/M19-0618.

https://t.co/MLWwAGXjf4

Que terapêutica anti-trombótica se associa a menor taxa de hemorragia e eventos tromboembólicos na Fibrilhação Auricular após stent coronário? – Notas de Evidentia #282019

Por Susana Pires

PERGUNTA CLÍNICA

P – Adultos com fibrilhação auricular não-valvular pós angioplastia coronária com colocação de stent

I – Terapêutica tripla (inibidor de vitamina K + dupla terapêutica antiagregante)

C – Dupla terapêutica antiagregante; anticoagulante oral de acção directa + terapêutica única antiagregante; inibidor de vitamina K + terapêutica única antiagregante; rivaroxabano de baixa dose + dupla terapêutica antiagregante; anticoagulante oral de acção directa + dupla terapêutica antiagregante

O – Eventos cerebrovasculares; mortalidade global; enfartes do miocárdio, eventos cardiovasculares major; hemorragia major.

A RETER

Os regimes terapêuticos com anticoagulantes orais de acção directa (NOACs) associaram-se a menores taxas de hemorragia major e de eventos CV major, mas os regimes com inibidor de vitamina K associaram-se a maiores probabilidades de eficácia na diminuição da mortalidade global e AVCs; impõe-se a personalização destes regimes atendendo ao risco de mortalidade global do doente, bem como ao balanço do risco entre eventos tromboembólicos e eventos hemorrágicos.

QUAL A RELEVÂNCIA DESSA PERGUNTA?

A prevalência da fibrilhação auricular (FA) e da doença arterial coronária aumenta com a idade e há uma percentagem significativa de doentes com FA que se submetem a angioplastia coronária com colocação de stent (5-8%). A terapêutica anti-trombótica “óptima” para equilibrar o risco de eventos tromboembólicos e o risco de eventos hemorrágicos permanece em debate.

QUEM FINANCIOU?

Não é referido.

QUE TIPO DE PERGUNTA FAZ ESTE ESTUDO?

Revisão Sistemática com Meta-análise em rede.

CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS

Incluídos 3 ensaios clínicos e 15 estudos observacionais, com um total de 23 478 indivíduos. Dos 15 estudos observacionais, 8 obtiveram risco moderado de viés e 7 obtiveram risco grave/sério. Os 3 ensaios incluídos obtiveram risco alto de viés de performance e risco baixo nas restantes categorias. Não foi incluído gráfico em funil no artigo. A revisão apresenta os seus resultados de maneira confusa, o que dificulta a percepção de qualidade/resultados/precisão dos estudos individuais que a compõem. Apesar da conclusão favorecer os anticoagulantes orais de acção directa + terapêutica antiagregante única, parece-me que os resultados são bastante favoráveis para o uso do inibidor da vit K (varfarina), com as devidas precauções face ao risco de hemorragia. Os intervalos de confiança não constam nesta revisão sistemática.

QUAIS SÃO OS RESULTADOS?

Inibidor de vit K + terapêutica antiagregante única tem a maior probabilidade (60%) de ser a abordagem mais eficaz para a prevenção de AVC; a terapêutica antiagregante dupla foi a que se mostrou com probabilidade de ser menos eficaz (0.1%). Para a mortalidade global, a abordagem com maior probabilidade de ser mais eficaz foi o inibidor de vit K + terapêutica dupla antiagregante (36.4%). Para a prevenção de efeitos CV major, a abordagem com maior probabilidade de ser mais eficaz foi o anticoagulante oral de acção directa em dose baixa + terapêutica dupla antiagregante (50.6%), o que também se verificou para a prevenção de enfarte do miocárdio (melhor probabilidade, com 40%). Já para a prevenção de hemorragia major, a abordagem com maior probabilidade de ser mais eficaz foi o anticoagulante oral de acção directa em dose baixa + terapêutica única antiagregante (53.3%), sendo que os regimes com inibidor de vit K encontraram-se mais associados a hemorragia do que os regimes com anticoagulantes orais de acção directa.

Os intervalos de confiança e o I2 não constam nesta revisão sistemática.

COMO POSSO APLICAR OS RESULTADOS AOS MEUS DOENTES?

Os resultados, apesar de clinicamente relevantes, desconhece-se se serão estatisticamente significativos. Esta revisão apresenta algumas limitações, pelo que a sua aplicabilidade deve ser pensada caso a caso.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Knijnik, Leonardo, et al. “Prevention of Stroke in Atrial Fibrillation After Coronary Stenting: Systematic Review and Network Meta-Analysis.” Stroke, vol. 50, no. 8, Aug. 2019, pp. 2125–32. DOI.org (Crossref), doi:10.1161/STROKEAHA.119.026078

https://t.co/iHH5otvSOx

O Rastreio do Cancro da Mama deve incluir Ressonância Magnética? – Notas de Evidentia #262019

Por Catarina Brilhante

PERGUNTA CLÍNICA

Em mulheres com risco familiar para cancro da mama, o rastreio para este cancro deve incluir a ressonância magnética?

P – mulheres, entre os 30 e os 55 anos, com risco familiar cumulativo de pelo menos 20% de ter cancro da mama, sem diagnóstico prévio de cancro invasivo, mutação brca 1 e 2 e mutação TP53.

I – rastreio com ressonância magnética & exame clínico anuais + mamografia bianual

C – rastreio com mamografia & exame clínico anuais

O – primários: Diagnóstico de cancro da mama (nº de cancros detectados, tamanho da lesão, existência de invasão local) secundários: falsos positivos, sensibilidade, especificidade de cada método diagnóstico, valor preditivo do positivo da biópsia e de um Birads>=3

A RETER

A inclusão da ressonância magnética pode ser uma vantagem nas mulheres com alto risco de cancro da mama, sem mutações genéticas brca 1/2 ou TP53, ao detectar cancro em estadios mais precoces, mas este estudo, pelo seu desenho, pouco contribui no sentido de o esclarecer. Neste momento é difícil prever se, a longo prazo, os malefícios de um rastreio mais sensível não será feito à custa dos malefícios de mais falsos positivos e de muito sobrediagnóstico, não se produzindo efeito sobre a mortalidade.

QUAL A RELEVÂNCIA DESSA PERGUNTA?

Perceber se a inclusão de RM no rastreio de cancro da mama traz benefícios para a saúde, uma vez que as guidelines de alguns países já a incluem (baseando-se em estudos de fraca qualidade metodológica). Um rastreio positivo não representa um diagnóstico (falsos positivos, falsos negativos). Um grande nº de cancros de mama ocorrem em mulheres em que existe história familiar da doença, mas em que não são encontradas mutações genéticas conhecidas causadoras da patologia. O rastreio nestas mulheres pretende aumentar a sobrevida através da detecção precoce. No entanto, é necessário que esse ganho não seja feito à custa de um grande nº de falsos-positivos. Os estudos existentes combinam a realização de mamografia e RM simultaneamente. Assim, não é possível perceber quantos tumores detectados por RM seriam detectados por mamografia, se essa detecção traduziria estadios diferentes de doença e se isto seria clinicamente significativo, ou seja, se alteraria o prognóstico das mulheres. Outra falha a apontar, segundo os investigadores, foi a não individualização da variável «densidade mamária» (Maior densidade mamária representa maior risco de cancro da mama; Maior densidade mamária diminui a sensibilidade da mamografia, mas tem menos efeito na RM e pode levar a um aumento na quantidade de falsos positivos na mamografia em relação à RM. A densidade mamária pode ser um parâmetro a isolar para identificar um subgrupo de mulheres a beneficiar do rastreio com RM.)

QUEM FINANCIOU?

Organização ZonMw (Governo dos Países Baixos) , Dutch Cancer Society, A Sister’s hope, Pink Ribon, Stichting Coolsingel, J&T Rijke Stichting.

QUE TIPO DE PERGUNTA FAZ ESTE ESTUDO?

Diagnóstico (Rastreio).

CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS

Este estudo tenta responder a uma questão de prevenção. Neste contexto, os rastreios são um tipo de intervenção complexa. Embora um ensaio clínico possa dar algumas respostas específicas neste âmbito, esta informação tende a ser completada por estudos observacionais longitudinais (tipo caso-controlo ou de coorte). Resultados sobre prevenção carecem do factor tempo para serem encontrados, o que neste estudo é, sem dúvida, uma grande limitação.

Neste estudo, é selecionada uma amostra, claramente definida, e são constituídos dois grupos aleatorizados e aleatorizados que são sujeitos a protocolos diferentes. Este processo é descrito de forma muito sumária e não permite perceber se fica comprometido em algum momento. Parece ter sido cego para investigador, médico e participante e recorrendo a um programa informático não mencionado. O tamanho da amostra foi calculado para permitir a significância estatísticas nos resultados alcançados, o que não foi possível no tempo definido inicialmente, factor que os investigadores ultrapassaram estendendo o estudo no tempo.

Os 2 grupos, semelhantes, são comparados em relação a vários factores prognósticos conhecidos que podem afectar os resultados. Os investigadores fazem a sua análise por intenção-de-tratar, ou seja, analisando os resultados de toda a população aleatorizada, independentemente de perdas ao longo do tempo, o que constitui um ponto forte do estudo. Da amostra inicial há apenas 1 exclusão em relação aos grupos analisados, por dizer respeito a um critério de exclusão encontrado antes do inicio do protocolo. No entanto, após o inicio do estudo, são encontradas mulheres com critérios de exclusão (mutação genética) previamente definidos que mesmo assim são consideradas para análise.

Outra limitação encontrada é o grande nº de mulheres perdidas no follow up (superior a 10% em ambos os grupos). A avaliação da mamografia, RM e biópsia são dependentes da experiência do avaliador. Não é apresentado nenhum método para tentar ultrapassar esta limitação. A palpação mamária faz depender o resultado tanto do observador como da própria densidade mamária. Neste tipo de estudo não seria possível deixar os investigadores, médicos e doentes cegos em relação ao grupo a que pertenciam. No entanto seria de esperar que a mamografia e a RM fossem analisadas independentemente, já que é uma limitação apontada aos estudos realizados anteriormente, de forma a entender que tumores seriam apenas detectados por um dos métodos.

O diagnóstico do cancro da mama é um surrogate endpoint para mortalidade, que representa uma limitação para o estudo.

QUAIS SÃO OS RESULTADOS?

Foram incluídas 1355 mulheres (675 grupo intervenção; 680 grupo controlo). O número médio de vezes que cada mulher efectuou o rastreio foi de 4,3 (desvio-padrão 1,76) Foi detectado maior nº de cancros no grupo-intervenção (40 vs 15; p=0,0017). Os cancros invasivos apresentaram menores dimensões no grupo-intervenção (média de 9 mm [5–14] vs 17 mm [13–22]; p=0,010). No grupo-intervenção, os cancros foram detectados em estadios mais precoces (12 [48%] de 25 vs 1 [7%] de 15 estavam em estadio T1a ou T1b; 1 (4%) de 25 vs 2 (13%) de 15 estavam em estadio T2 iu superior; p=0,035). Todos os cancros detectados em estadio T2 ou superior ocorreram em mulheres com elevada densidade mamária (categorias C e D; p=0,0077). Registou-se uma morte por cancro da mama durante o studo no grupo-controlo.

Apesar de estatisticamente significativos, os resultados não são clinicamente relevantes.

COMO POSSO APLICAR OS RESULTADOS AOS MEUS DOENTES?

Este estudo é realizado numa amostra muito bem definida de doentes, provavelmente não será possível aplicar todos os critérios de exclusão à generalidade dos utentes. Nem todas as mulheres com risco familiar fazem estudo genético. Provavelmente estas mulheres, com risco familiar, também não estarão todas identificadas. Por outro lado, a ressonância magnética é um exame que não é comparticipado quando requisitado a nível de cuidados primários. Como já identificado anteriormente, é usado um surrogate endpoint neste estudo. Um rastreio considerado positivo não é um diagnóstico de cancro. E pode ser abusivo concluir acerca de mortalidade através de um teste de rastreio. Neste momento é dificil prever se, a longo prazo, os malefícios de um rastreio mais sensível não será feito à custa dos malefícios de mais falsos positivos e de muito sobrediagnóstico, não se produzindo efeito sobre a mortalidade. Neste estudo os malefícios da intervenção não são tidos em conta.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Saadatmand, Sepideh, et al. “MRI versus Mammography for Breast Cancer Screening in Women with Familial Risk (FaMRIsc): A Multicentre, Randomised, Controlled Trial.” The Lancet Oncology, vol. 20, no. 8, Aug. 2019, pp. 1136–47. http://www.thelancet.com, doi:10.1016/S1470-2045(19)30275-X.

https://t.co/Dc2JaNeYN6

Existe associação entre o consumo de bebidas açucaradas e o risco de cancro em adultos? – Notas de evidentia #242019

Por Catarina Neves dos Santos

PERGUNTA CLÍNICA

Existe associação entre o consumo de bebidas açucaradas, sejam elas 100% sumo de fruta, bebidas com adição de açúcar ou bebidas com adição de edulcorantes, e o risco de cancro em adultos sem antecedentes de neoplasia?

A RETER

Verificou-se associação entre o consumo de bebidas açucaradas e o risco global de cancro e, em específico, de cancro da mama. No entanto, esta associação não significa causalidade e o aumento do risco de cancro foi bastante pequeno, pelo que os resultados têm pouco significado clínico e não devem alterar a nossa prática clínica habitual.

QUAL A RELEVÂNCIA DA PERGUNTA?

O consumo de bebidas açucaradas tem aumentado nas últimas décadas. Sabe-se que o seu consumo está associado a um maior risco de obesidade, diabetes tipo II, hipertensão e mortalidade cardiometabólica, e que a obesidade é um factor de risco para vários tipos de cancro. No entanto, existe pouca evidência acerca do papel do consumo de diferentes tipos de bebidas açucaradas no risco de cancro.

QUEM FINANCIOU?

Ministère de la Santé, Santé Publique France, Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale (INSERM), Institut National de la Recherche Agronomique (INRA), Conservatoire National des Arts et Métiers (CNAM) e Université Paris 13. Um dos autores foi financiado pelo French National Cancer Institute e Fondation de France.

QUE TIPO DE PERGUNTA FAZ ESTE ESTUDO?

Malefício.

CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS

Foram tidas em conta outras variáveis determinantes para o malefício que está a ser estudado, tendo a análise dos resultados sido ajustada para essas variáveis. O malefício precedeu o risco estudado e foi medido de igual forma nos grupos controlo e de exposição. Existe um gradiente de dose-resposta entre o malefício e o risco encontrado. Contudo, é difícil encontrar no artigo informação acerca do follow-up dos doentes.

QUAIS SÃO OS RESULTADOS?

Cancro: HR= 1,18 IC95% [1,10 – 1,27]; p<0,001

Cancro da mama: HR= 1,22 IC95% [1,07 – 1,39]; p=0,004

100% sumo de fruta: HR= 1,12 IC95% [1,03 – 1,23]; p=0,007

Resultados precisos e estatisticamente significativos, mas clinicamente pouco relevantes por se tratarem de aumentos de risco bastante pequenos.

COMO POSSO APLICAR OS RESULTADOS AOS MEUS DOENTES?

A selecção de participantes por internet levou a uma maior prevalência de mulheres, com idades mais jovens e nível socioprofissional e educacional superior, pelo que a amostra não é representativa da população geral.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Chazelas, Eloi, et al. «Sugary Drink Consumption and Risk of Cancer: Results from NutriNet-Santé Prospective Cohort». BMJ, Julho de 2019, p. l2408. DOI.org (Crossref), doi:10.1136/bmj.l2408

https://www.bmj.com/content/366/bmj.l2408.long

Declaração de Copenhaga para Actividade Física e Envelhecimento – Notas de Evidentia #222019

Por Sofia Gonçalves Ribeiro

PERGUNTA CLÍNICA

Qual o efeito da actividade física nos idosos, no que diz respeito à capacidade funcional e cognitiva, saúde mental, alteração de comportamentos e inclusão social?

A RETER

Consenso de peritos elaborado por 26 investigadores, de várias áreas, baseado em evidencia científica, sobre efeito da actividade física nos idosos. Este consenso reforça os vários benefícios da actividade física, contudo realça a necessidade de mais estudos sobre os tipos de exercícios e a duração/frequência da sua prática.

QUAL A RELEVÂNCIA DESSA PERGUNTA?

O aumento da prevalência da população idosa tem desencadeado várias preocupações, nomeadamente em encontrar práticas que promovam um envelhecimento activo e saudável.  A actividade física tem demonstrado múltiplos benefícios, sendo que este artigo pretende resumir o estado da arte sobre os efeitos da actividade física nos idosos.

QUEM FINANCIOU?

Os autores não declararam nenhum financiamento.

QUE TIPO DE PERGUNTA FAZ ESTE ESTUDO?

Consenso de peritos.

CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS

De 19-22/novembro/2018, 26 investigadores representando nove países e várias áreas académicas reuniram-se na Dinamarca, com o objectivo de elaborar um consenso baseado em evidência cientifica sobre actividade física e idosos. As declarações apresentadas são baseadas em associações longitudinais obtidas de estudos observacionais e estudos controlados e aleatorizados, bem como em estudos sociais quantitativos e qualitativos em idosos saudáveis da comunidade, abarcando diferentes metodologias e matérias (epidemiologia, medicina, fisiologia, neurociência, psicologia, sociologia). Os autores não apresentam as referências bibliográficas, pelo que não temos acesso aos estudos em que se basearam para chegarem às suas conclusões. Contudo, referem ter tido em conta os pontos fortes e limitações de cada metodologia dos estudos analisados. Não é indicado o nível de evidência ou força de recomendação.

QUAIS SÃO OS RESULTADOS (DECLARAÇÕES)?

Os autores dividiram as suas declarações em 4 temas: 1. Capacidade funcional e saúde; 2. Função cognitiva e saúde mental; 3. Modificação de comportamentos, motivação e hábitos; 4. Perspectiva social.

Declarações mais relevantes:

  • Idosos fisicamente activos, em comparação com idosos inactivos, mostram benefícios em termos de função física e cognitiva, mobilidade, dor músculo-esquelética, risco de quedas, fracturas, depressão, qualidade de vida e compreensão da incapacidade.
  • A inactividade física em idosos está associada a uma maior probabilidade de doença e aumento do risco de mortalidade prematura por todas as causas. As condições e doenças incluem disfunção metabólica, doenças cardiovasculares, alguns tipos de neoplasias e sarcopénia.
  • Os benefícios da actividade física (por exemplo, melhor função física e mortalidade prematura reduzida) podem ocorrem mesmo quando realizada em menor volume e intensidade do que as guidelines frequentemente recomendam (150 min de actividade física de intensidade moderada a vigorosa por semana).
  • São necessários mais estudos para determinar que tipo de exercício, (por exemplo, resistência, equilíbrio, flexibilidade, exercício aeróbico ou uma combinação de modalidades) e qual é a duração e intensidade do exercício necessário para optimizar os seus benefícios.
  • Estudos observacionais proporcionam evidência consistente de que o declínio cognitivo associado ao envelhecimento (também observado, por exemplo, na doença de Alzheimer e na doença de Parkinson) pode ser atrasado nos idosos activos.
  • Estudos controlados e aleatorizados que habitualmente incluem 3 horas de actividade física por semana em períodos que variam entre alguns meses a 1 ano, mostram uma melhoria na estrutura e função do cérebro e da capacidade cognitiva, perceptual e motora.
  • Auto-eficácia, motivação, depressão e saúde auto-referida estão associados a actividade física nos idosos.
  • A prática de exercício é influenciado por factores interpessoais, ambientais e políticos.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Bangsbo, Jens, et al. «CopenhagenConsensusStatement 2019: PhysicalActivityandAgeing». BritishJournalof Sports Medicine, Fevereiro de 2019, p. bjsports-2018-100451. DOI.org (Crossref), doi:10.1136/bjsports-2018-100451.

https://t.co/cHGQEgYRqf

Ovário Poliquístico: recomendações para avaliação e gestão clínica – notas de evidentia #202019

Por Mónica Fonseca

Pergunta Clínica

Qual a avaliação e tratamento recomendados no Síndrome do Ovário Poliquístico (SOP), com base na melhor evidência disponível e experiência clínica?

A Reter

Orientação clínica com colaboração internacional, baseada na evidência disponível, incluindo 166 recomendações e aspectos a ter em conta na nossa prática clínica. São abordadas e priorizadas questões relevantes para a promoção de cuidados de saúde mais consistentes e rigorosos com o objetivo de garantir a prestação de cuidados mais individualizados e satisfatórios para as utentes. As principais recomendações estão descritas na secção “Quais são os resultados?”.

Qual a relevância dessa pergunta?

SOP é a endocrinopatia mais frequente em mulheres em idade fértil. As orientações anteriores apresentam limitações e inconsistências que colocam em causa o melhor seguimento e satisfação destas utentes.

Quem financiou?

Australian National Health and Medical Research Council of Australia (NHMRC) European Society of Human Reproduction and Embryology (ESHRE) e American Society for Reproductive Medicine (ASRM).

Que tipo de perguntas faz este estudo?

Orientação Clínica (guideline).

Quais são os Resultados (Recomendações e Força de recomendação)?

As orientações clínicas existentes até esta publicação evidenciam a ausência de metodologia rigorosa e robustez no que se refere à evidência. Por outro lado, carecem de uma perspectiva multidisciplinar desejável nesta patologia. O diagnóstico de SOP permanece controverso e a avaliação/plano de seguimento clínico desta patologia são inconsistentes e as necessidades. Com este orientação clínica, verifica-se que a evidência disponível corresponde a baixa-moderada qualidade. Nela constam 31 recomendações baseadas em evidência, 59 recomendações clínicas de consenso e 76 aspectos a ter em conta na prática clínica. As principais diferenças relativamente às orientações disponíveis, incluem: critérios diagnósticos individuais com foco na melhoria da precisão do diagnóstico; importância da redução de testes desnecessários; aumentar o foco na educação, na modificação do estilo de vida, no bem-estar emocional e na qualidade de vida; ênfase numa prática clínica baseada em evidência na gestão da infertilidade. Deixamos em tabela um resumo das principais recomendações:

Como posso aplicar os resultados aos meus doentes?

É possível reproduzir a intervenção estudada no meu contexto de trabalho, tendo sido considerados todos os resultados clinicamente importantes para o doente. Para as recomendações fortes, existe concordância entre o nível de prova científica e a força de recomendação atribuída. Para as recomendações fracas, de certa forma, a informação que é fornecida promove a tomada de decisão partilhada.

Referência Bibliográfica

Teede, Helena J., et al. «Recommendations from the International Evidence-Based Guideline for the Assessment and Management of Polycystic Ovary Syndrome†‡». Human Reproduction, vol. 33, n. 9, Setembro de 2018, pp.1602–18. DOI.org (Crossref), doi:10.1093/humrep/dey256

https://t.co/fKruA39EU8

Atendendo à existência de múltiplas recomendações, para mais detalhe, consideramos mais pertinente a consulta da Tabela III do artigo (disponível em https://www.fertstert.org/article/S0015-0282(18)30400-X/pdf pp.368-377), que se encontra organizada em: Rastreio, diagnóstico e avaliação de risco de comorbilidades ao longo do ciclo de vida; Prevalência, avaliação, diagnóstico e tratamento de patologia mental e impacto da doença na qualidade de vida; Eficácia das intervenções no estilo de vida e princípios a ter em conta no tratamento farmacológico da doença; Avaliação e tratamento da infertilidade.

Idosos e Fragilidade – treino de força e suplementação proteica têm eficácia para atrasar/reverter a fragilidade? – Notas de evidentia #182019

Por Mariana Prudente

Pergunta Clínica

Qual a intervenção mais eficaz e prática/fácil de implementar nos Cuidados de Saúde Primários para atrasar ou reverter situações de fragilidade?

A Reter

Este estudo tem graves limitações metodológicas. A atividade física, especialmente o treino de força, diminui o risco de quedas. É necessário proceder a uma revisão sistemática metodologicamente adequada sobre o tema.

Qual a relevância dessa pergunta?

Com o envelhecimento da população e aumento da esperança média de vida, será cada vez mais frequente depararmo-nos com situações de fragilidade, com mais custos associados, nomeadamente por fraturas após queda, intercorrências infeciosas com internamentos prolongados e cirurgias e maior morbilidade e menor qualidade de vida. Assim, têm sido desenvolvidas algumas ferramentas para a sua identificação precoce e propostas várias intervenções de modo a atrasar ou reverter situações de fragilidade.

Quem financiou?

Um dos autores recebeu uma bolsa da Irish Health Research Board for Systematic Approach for improving care for frail older people (SAFE) study (referencia APA-2016-1857).

Que tipo de pergunta fez este estudo?

Pergunta de eficácia – Revisão Sistemática.

Considerações metodológicas

Não foi definida população a que se dirige as intervenções, depreende-se população idosa e com fragilidade, mas não está definida nos critérios, idade, comorbilidades, cut off e critério para estabelecer fragilidade. Na pergunta pretendem não só perceber quais as intervenções mais eficazes mas baseiam-se em redução de riscos relativos (sem o descreverem) mas também na facilidade da sua aplicação nos Cuidados de Saúde Primários (sem descreveram custos, tempo e recursos necessários para cada uma das intervenções realizadas em cada estudo que utilizaram). Não publicaram tabela de avaliação qualidade e viés dos vários estudos incluídos. Optaram por excluir literatura ‘cinzenta’. E não facilitam a leitura para a avaliação metodológica e resultados obtidos, dado não apresentarem descrição breve dos vários estudos, local de realização, outcomes, descrição da população e amostra utilizada, intervenções e outcomes avaliados. Apesar de um objetivo ser perceber a facilidade na aplicação de determinada intervenção, não foi descrito o tempo necessário de cada intervenção para obtenção de ganhos, nem custos e recursos utilizados.

Quais são os resultados?

O treino de força e o reforço proteico na dieta parecem reduzir o risco relativo de fragilidade. Os resultados são pouco precisos, não são apresentados os intervalos de confiança. Não sabemos se os resultados são estatisticamente significativos ou clinicamente importantes. Não foi apresentado valor de I2, é apenas referida grande heterogeneidade dos estudos. Esta revisão tem vários erros metodológicos que dificultam a interpretação dos resultados obtidos…

Como posso aplicar estes resultados aos meus doentes?

Estimular uma vida ativa (marcha, exercícios de força e equilíbrio) e alimentação adequada, especialmente em situações de fragilidade, poderá ajudar na diminuição de casos de desnutrição e diminuição do risco de quedas, podendo assim talvez melhorar a sua qualidade de vida e diminuir nº internamentos por fratura e intercorrências infeciosas (ex. pneumonia).

Referência bibliográfica:

Travers, John, et al. «Delaying and Reversing Frailty: A Systematic Review of Primary Care Interventions». British Journal of General Practice, vol. 69, n. 678, Janeiro de 2019, pp. e61–69. DOI.org (Crossref), doi:10.3399/bjgp18X700241.

https://bjgp.org/content/69/678/e61

Create a website or blog at WordPress.com

EM CIMA ↑