Consulta anual de vigilância de caráter preventivo: vale a pena? – Notas de Evidentia #032020

Por Marina Teixeira

Pergunta Clínica

A introdução de uma consulta de vigilância anual traz benefícios para taxa de cobertura e adequação de rastreios oncológicos (mama, colo-rectal, colo do útero e PSA), cuidados neuropsiquiátricos, cuidados funcionais, idas ao serviço de urgência, hospitalizações e custos?

Veredicto Evidentia Médica

A introdução de uma consulta de vigilância anual, isenta de co-pagamento, e focada apenas em intervenções preventivas, parece não trazer benefícios em relação a uma maior taxa da cobertura de rastreios, adequação de rastreios, referenciação a neuropsiquiatria, fisioterapia ou terapia ocupacional, episódios de urgência, hospitalizações ou custos.

Qual a relevância dessa pergunta?

Em 2011, o seguro americano “Medicare” introduziu a possibilidade das clínicas médicas oferecerem aos seus beneficiários uma consulta de “bem-estar” anual (isenta de co-pagamento), a fim de promover a prestação e cuidados preventivos baseados na evidência, identificar factores de risco e identificar problemas não diagnosticados.

Quem financiou?

Haven e National Institut on Aging

Que tipo de pergunta faz este estudo?

Tratamento

Considerações metodológicas

Trata-se de um estudo observacional, de análise de dados. Período temporal de análise de cerca de 7 anos (2008-2015). Houve diferenças entre os beneficiários das clínicas que adoptaram a visita anual e os que não (grupo intervenção com idades mais avançadas, esquemas de medicação menos complexos, menor probabilidade de pertencer a etnias). De um total de 23 665 beneficiários, 15 123 tiveram consulta anual. Não foram avaliadas possíveis factores de confundimento. São referidos IC de 95%, mas não são apresentados os valores. p < 0.002

Quais são os resultados?

Os resultados encontram-se expressos através da “diferença nas diferenças”. Esta é uma técnica estatística utilizada para mimetizar um estudo experimental (afinal, a pergunta inicial é de tratamento) utilizando dados obtidos de um estudo observacional. Analisa-se a diferença de efeito observada entre o grupo “tratamento” e o grupo “controlo”, comparando a diferença média do efeito ao longo do tempo entre os grupos.

Diferença nas diferenças:

Mamografia adequada: 0,82% (ajustada à tendência pré-intervenção: 0,41%)

Rastreio colo-rectal adequado: 0,14% (ajustada à tendência pré-intervenção: 0,18%)

Colpocitologia de baixo-valor: -0,61% (ajustada à tendência pré-intervenção: -0,46%)

Teste PSA de baixo-valor: -1,41% (ajustada à tendência pré-intervenção: 0,47%)

Rastreio colo-rectal de baixo-valor: -0,16% (ajustada à tendência pré-intervenção: 0,54%)

Referenciação a especialista de neuropsiquiatria ou cuidados funcionais: 0,03% (ajustada à tendência pré-intervenção: -0,03%)

Referenciação a fisoterapia e terapia ocupacional: 0,86% (ajustada à tendência pré-intervenção: 0,17%)

Consultas de urgência (por 100 beneficiários-ano): -2,07% (ajustada à tendência pré-intervenção: 0,00%)

Consultas de urgência por condição sensível a cuidados em ambulatório (por 100 beneficiários-ano): -1,57% (ajustada à tendência pré-intervenção: 0,38%)

Hospitalizações (por 100 beneficiários-ano): -0,30% (ajustada à tendência pré-intervenção: 0,89%)

Hospitalizações por condição sensível a cuidados em ambulatório (por 100 beneficiários-ano): 0,0% (ajustada à tendência pré-intervenção: 1,07%)

Total de gastos por beneficiário ($): -58,14 (ajustada à tendência pré-intervenção: 290,84)

Desconhecemos se estes resultados são estatisticamente significativos (é referido IC 95%, mas desconhecemos os valores), mas aparentam ser clinicamente não relevantes.

Como posso aplicar os resultados aos meus doentes?

A população em estudo consiste em adultos com seguro de saúde (Medicare), que não corresponderão à larga maioria dos nossos doentes da prática diária. Não foram tidos em conta eventuais prejuízos da intervenção em estudo (sobrediagnóstico, sobretratamento), pelo que não conseguimos perceber se os benefícios valem os riscos. Aparentemente, não valem os custos. Também não foram avaliados outros outcomes importantes para os doentes (qualidade de vida). Torna-se difícil aplicar estes resultados na prática diária.

A introdução de uma consulta de vigilância anual, isenta de co-pagamento, e focada apenas em intervenções preventivas, parece não trazer benefícios em relação a uma maior taxa da cobertura de rastreios, adequação de rastreios, referenciação a neuropsiquiatria, fisioterapia ou terapia ocupacional, episódios de urgência, hospitalizações ou custos

Referência Bibliográfica

Ganguli, Ishani, et al. «Association Of Medicare’s Annual Wellness Visit With Cancer Screening, Referrals, Utilization, And Spending». Health Affairs, vol. 38, n. 11, Novembro de 2019, pp. 1927–35. DOI.org (Crossref), doi:10.1377/hlthaff.2019.00304.

https://www.healthaffairs.org/doi/abs/10.1377/hlthaff.2019.00304?journalCode=hlthaff

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *