COVID19 – será que as pessoas assintomáticas devem usar máscaras quando andam na rua e em lugares públicos?

Equipa projecto COVID19PT-CIÊNCIA

Ao contrário da recomendação de uso de máscara dentro de unidades de cuidados de saúde e em indivíduos sintomáticos, a Direção-Geral de Saúde em várias conferências de imprensa tem desaconselhado o uso de máscara disseminado na comunidade por indivíduos assintomáticos. Podemos ver essa informação na página de perguntas e respostas onde encontramos o seguinte:

Tenho de usar máscara para me proteger?

De acordo com a situação atual em Portugal, não está indicado o uso de máscara para proteção individual, exceto nas seguintes situações:
• Suspeitos de infeção por COVID-19;
• Pessoas que prestem cuidados a suspeitos de infeção por COVID-19.

A Direção-Geral da Saúde não recomenda, até ao momento, o uso de máscara de proteção para pessoas que não apresentam sintomas (assintomáticas). O uso de máscara de forma incorreta pode aumentar o risco de infeção, por estar mal colocada ou devido ao contacto das mãos com a cara. A máscara contribui também para uma falsa sensação de segurança.

No entanto, mesmo entre nós em Portugal esta posição não é consensual e a dúvida de usar ou não máscara na rua existe. As próprias autoridades de saúde, no documento Plano Nacional de Preparação e Resposta à Doença por novo coronavírus (COVID-19) assumem que “… indivíduos assintomáticos com suscetibilidade acrescida, o uso da máscara pode ser reservado para uma fase de mitigação e em contexto de grandes aglomerados populacionais ou de frequência de serviços de saúde.”

De forma mais clara e explícita, recentemente o Conselho de Escolas Médicas Portuguesas emitiu um comunicado no qual recomenda “o uso generalizado de proteção individual, como o uso de máscaras pela comunidade, a fim de reduzir o risco de contaminação.” Argumentam com o facto de portadores assintomáticos serem responsáveis de contágio baseados nos bons exemplos de países como China, Macau, Taiwan, Singapura ou Coreia do Sul.   

A discussão coloca-se também a nível internacional. Segundo o Director-Geral do Centro Chinês para Controlo e Prevenção de Doenças a resposta a esta dúvida é clara, “sim, é para usar máscaras.” Diz até que é o grande erro que Europa e EUA estão a cometer.  Numa recente entrevista à revista Science ele defende que

“…este vírus é transmitido por gotículas e contacto próximo. Gotículas desempenham um papel muito importante – e precisamos de usar uma máscara, porque quando você fala, sempre há gotículas a sair da sua boca. Muitas pessoas têm infecções assintomáticas ou pré-sintomáticas. Se elas usarem máscaras, pode-se impedir que gotículas que transportam o vírus escapem e infectem outras pessoas.”

Por outras palavras, parece legítimo pensar que em tempos excepcionais, todos os contributos para limitar o contágio são bem vindos. No fundo, a aplicação do Estado de Emergência assenta no argumento de permitir a aplicação de medidas de confinamento social com intuito de mitigar o contágio na sociedade. Pretende portanto diminuir o risco de que andemos a infectar outros concidadãos. Da mesma forma que essa linha argumentativa sustenta a recomendação de guardar distanciamento social deixando 2 metros entre indivíduos, também aquela de ficar em casa e não sair à rua, o uso de máscara por parte de pessoas assintomáticos tem plausibilidade teórica de poder contribuir um extra para o objectivo de não fazer chegar gotículas a outro indivíduo. Ou seja, o objectivo é a protecção comunitária e não a protecção individual. Por isso o Centro para Controlo e Prevenção de Doenças Americano – CDC – além de recomendar que as pessoas que apresentem sintomas devem usar máscaras, actualmente discute a possibilidade de recomendação de todos os cidadãos usarem máscaras, mesmo que sejam de tecido feitas em casa. Lá está, objectivo é impedir que contagiemos outros. 

No projecto COVID19PT-CIÊNCIA defendemos que as decisões devem ser fundamentadas pela melhor evidência disponível, e até agora o que vemos não passa de opinião de peritos. Por muito peritos que sejam os autores destas recomendações, e por exemplo o Director Geral do CDC Chinês é de facto um dos maiores peritos em virologia, todos devem apresentar dados. Fomos à procura desses dados. Não tivemos tempo nem recursos de fazer uma revisão sistemática e desde já alertamos para isso, mas a pesquisa foi extensa.
Deparamo-nos com ausência de evidência robusta para responder a esta pergunta. Mas as decisões têm de ser feitas mesmo nestas circunstâncias pelo que conscientemente correndo o risco de cherry-picking, resumimos aqui apenas alguns dos artigos que encontrámos que podem contribuir para esclarecer esta dúvida.

 

1. Qual o papel das máscaras faciais na prevenção de infeções na comunidade e nos cuidados de saúde?


BMJ | Facemasks for the prevention of infection in healthcare and community settings


Mensagem chave: A eficácia das máscaras faciais depende do seu uso correto. Para profissionais de saúde, as máscaras FP2 ou N95 parecem oferecer proteção superior às máscaras cirúrgicas. Na comunidade os dados são ainda menos consistentes, uma vez que não é possível isolar o seu efeito de outras medidas preventivas como a higienização das mãos. 
Link para o artigo original
Link para análise

Clara Jasmins | artigo de 09/04/2015

 

2. Uso racional de máscaras faciais na pandemia a COVID-19

Lancet | Rational use of face masks in the COVID-19 pandemic


Mensagem chave: A utilização generalizada de máscara facial pela comunidade tem sido controversa. No entanto, é essencial distinguir “ausência de evidência” e “evidência de ausência”. Atualmente, a OMS recomenda apenas o seu uso se sintomas ou em contacto próximo com alguém sintomático. No entanto, o racional da utilização da máscara poderá ser mais importante para proteção comunitária, do que na prevenção individual, uma vez que indivíduos assintomáticos são potencialmente contagiosos.


Link para o artigo
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Clara Jasmins | artigo de 20/03/2020

3. Haverá associação entre o uso de máscaras N95 e a transmissão de 2019-nCoV?


The Journal of Hospital Infection | Association between 2019-nCoV transmission and N95 respirator use

Mensagem chave: Neste estudo, o uso de máscara N95, associado a lavagem e desinfeção das mãos reduziu o risco de infeção por 2019-nCoV em profissionais de saúde, mesmo com um risco basal de infeção maior. Ainda que não seja possível isolar o efeito de cada uma das medidas instituídas, estes resultados enfatizam a necessidade de medidas de proteção ocupacional no combate ao COVID-19.

Link para o artigo
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Clara Jasmins | artigo de 03/03/2020

 

4. Que tipo de proteção individual foi aconselhada na Coreia do Sul, devido à COVID-19?

Journal of Educational Evaluation for Health Professions | How to train health personnel to protect themselves from SARS-CoV-2 (novel coronavirus) infection when caring for a patient or suspected case

Mensagem chave: A Coreia do Sul é um dos países onde o controlo da COVID-19 foi aparentemente eficaz. Foi aconselhado um conjunto de medidas quer para proteção dos profissionais, quer da população em geral que terão ajudado a conter a doença, salientando-se a higienização das mãos, adequada etiqueta respiratória, potencial uso de máscara e distanciamento social.


Link para o artigo
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Clara Jasmins | artigo de 06/03/2020

 

5. Qual o equipamento adequado para proteção da via aérea dos profissionais de saúde?

International Journal of Nursing Studies | Policies on the use of respiratory protection for hospital health workers to protect from coronavirus disease (COVID-19)

Mensagem chave: Por precaução é recomendada a utilização de um equipamento de proteção da via aérea aos profissionais de saúde, idealmente um respirador, ou uma máscara cirúrgica na ausência do primeiro. No entanto, estas recomendações são díspares conforme a entidade que as propõe. O uso prolongado de máscaras e a sua reutilização não são isentos de risco. 


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Clara Jasmins | artigo de 13/03/2020

 

6. Utilização comunitária de máscara facial, existe evidência?

Lancet | Mass masking in the COVID-19 epidemic: people need guidance

Mensagem chave: A utilização de máscara facial como medida de saúde pública poderá ser particularmente útil para quebrar a linha de transmissão viral, em particular pelos indivíduos assintomáticos que apresentam já nesta fase precoce uma alta carga viral.


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Clara Jasmins | artigo de 03/03/2020

7. Orientações sobre a aplicação de medidas não farmacológicas (de saúde pública) para minimizar a disseminação do SARVS-CoV-2 na população.

Guidelines
European Center for Disease Prevention and Control (ECDC) | Guidelines for the use of non-pharmaceutical measures to delay and mitigate the impact of 2019-nCoV

Mensagem chave: As medidas não farmacológicas devem ser aplicadas em qualquer fase da epidemia, pois visam reduzir a transmissão do SARV-CoV-2. Estas medidas isoladamente não apresentam eficácia significativa, devendo ser utilizadas de forma combinada.

Link para o artigo 
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Raquel Rosado e Silva | artigo de 10/02/2020

 

Portanto, deparamo-nos com a situação em que 

– não há evidência nem a favor nem contra o uso pela população. 

– recordamos que ausência de evidência é diferente de evidência de ausência.

– DGS e OMS não recomendam activamente ainda que admitem o seu uso.

No que é que ficamos afinal?

Perante o elevado grau de incerteza o grupo do projecto COVID19PT-CIÊNCIA promoveu uma tentativa de decisão baseada no método GRADE em que cada um dos elementos do painel de “perito” foi chamado a fazer um “julgamento” sobre as várias dimensões que o método GRADE propõe no seu Evidence to Decision framework.

tabela GRADE – Evidence to Decision – ronda por 8 peritos; cinzento = 1 voto, verde muito escuro 7 votos. O resto gradual.

No final desta ronda concordamos que:

  • o problema merece esclarecimento
  • a existir efeito a favor da recomendação de uso de máscaras ele é pequeno; 
  • a certeza na evidência é baixa ou muito baixa
  • existe potencial incerteza nos valores atribuídos aos efeitos indesejáveis
  • o balanço dos efeitos benéficos vs prejudiciais provavelmente favorece a intervenção
  • a mesma implica custos moderados
  • que a certeza na evidência dos recursos necessários é muito baixa
  • a custo efectividade provavelmente favorece a intervenção
  • provavelmente há um problema de equidade
  • a intervenção é aceitável 
  • a intervenção é exequível

Conclusão:

– sabemos que o virus se transmite por gotículas;

– sabemos que  as medidas não farmacológicas mais efectivas são distanciamento social, isolamento de casos e quarentena de contactos de casos;

– sabemos que a existir algum efeito do uso de máscara ele faz mais sentido numa óptica de protecção dos outros e não na óptica de protecção individual;

– sabemos que a existir algum efeito na mitigação do surto, isoladamente ele é pequeno e pressupõe acesso generalizado a máscaras;

– como grupo opinamos que existe um potencial benefício na recomendação de uso de máscaras por pessoas assintomáticas sempre que a mesma seja acompanhada da correcta utilização das mesmas, das medidas de distanciamento social e de lavagem frequente das mãos;

Por: David Rodrigues, Clara Jamins, André Peralta, Raquel Rosado e Silva, Joana Vaz, Charlotte Oliveira, Paulo Sousa, Sandra Pais, Eduardo Freire Rodrigues e Ricardo Mexia.

Agradecimentos à Joana Sanches, Ana Catarina Esteves, Teresa Marques e Henrique Carvalho pelo interesse e ajuda na pesquisa.

Photos by Ani Kolleshi and Macau Photo Agency on Unsplash

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29 comentários “COVID19 – será que as pessoas assintomáticas devem usar máscaras quando andam na rua e em lugares públicos?

  1. Por alguma raZão se determinou em norma da DGS que por exemplo os trabalhadores de atendimento ao público devem usar máscara para prevenir que sejam transmissores da doença, apesar de estarem sujeitos a uma exposição acrescida ao risco (por exemplo, os caixas de supermercados). A meu ver, e vale o que vale, devia ser obrigatória a sua utilização também em todo o posto de trabalho que implicasse proximidade inferior a 2-3 metros. Outra situação igualmente preocupante são os adultos que estão em casa em isolamento por vezes sem máscaras (!) e não têm onde deixar os filhos pequenos, sujeitando-os a um risco acrescido de contágio. E por último e não menos grave, há unidades de saúde que nem dispõem de stocks suficientes de máscaras para fornecer aos doentes que a elas acorrem. Dito isto, e embora compreenda os potenciais riscos duma utilização inadequada de máscaras no que ao modo e material diz respeito, penso que já devíamos estar numa fase de produção em escala de máscaras de tecido à semelhança da República Checa para pelo menos reforçar a mitigação da doença. Não há evidência de ausência de resultados, pelo menos. Saudações.

  2. Parabéns por esta iniciativa.
    Uma análise desta natureza em tão pouco tempo tem sempre algumas imprecisões. A primeira é que na Singapura, Hong-Kong e no Japão as máscaras estão recomendadas quando por qualquer motivo não se pode assegurar o distanciamento ou evitar os aglomerados (a intimidade entre as pessoas torna o simples falar como uma fonte de infecção). A segunda falha, é usar uma meta-análise baseada no efeito protector da máscara num airborne virus para sustentar o seu beneficio num vírus que não se conhece ser airborne. A terceira, esta mais grave, é ignorar que há países com a epidemia controlada aonde de todo não a máscara é de uso generalizado (Israel, Finlândia, Noruega, Dinamarca, Catar).
    Bem hajam

    1. Obrigado Ricardo Mestre pela sua análise e comentário. A partir do momento em que não temos prova científica robusta temos de recorrer a artigos cuja inferência para responder à nossa dúvida está rodeada de elevada incerteza. Aquilo que aponta como “imprecisões” são limitações por nós reconhecidas mas que em nada alteram o sentido da argumentação que fazemos. Não usámos o facto de Singapura, Hong-Kong e no Japão para fundamentar a recomendação. Não fizemos o “salto de fé” de assumir que estudos de microorganismos airborne servem para outros não airborne. E por fim, a “mais grave” é a que menos sentido tem. O facto de outros países terem controlado a epidemia (altamente discutível nesta fase) sem máscaras não permite inferir que as mesmas não tenham alguma eficácia, por mais pequena que seja. De novo obrigado pela discussão.

  3. Defendo: máscaras, mesmo que caseiras, obrigatórias a quem sai de casa mas com tudo o resto: distanciamento social e confinamento caseiro.

    O problema é social, se a recomendação da máscara vai levar mais pessoas à rua. A meu ver, como já há pessoas que vão para a rua em qualquer caso, mais valia estarem protegidas.

    As máscaras caseiras não dão protecção individual mas servem para protecção comunitária e parece haver provas disso. Neste sentido E mantendo a distância social não vejo desvantagens da máscara. Mesmo que mal manuseada ou que leve a mexer na cara, o objectivo é que a distância social previna isso. Sendo caseiras não retiram stock aos profissionais.

    Ainda para mais anda toda a gente em pulgas a querer ajudar na crise, um grupo de pessoas conseguiria facilmente organizar a produção e distribuição de máscaras pela maioria dos portugueses em pouco tempo.

    Vejo mais vantagens que desvantagens.

    1. Veja por favor #masks4all Czech Republic, How to Significantly Slow Coronavirus. Tem um vídeo no YouTube, user Petr Ludwig. Na descrição do vídeo tem links para uma revisão bibliográfica, exemplos da aplicação na república Checa e exemplos de máscaras para fazer em casa.

      1. Não obstante o efeito mediático, deve ser feita uma avaliação ponderada sobre a evidencia do que se afirma neste vídeo da internet que julgo ser real. Creio que seja necessário analisar cronologicamente as medidas da República Checa https://www.vlada.cz/en/media-centrum/aktualne/measures-adopted-by-the-czech-government-against-coronavirus-180545/ para perceber que a medida de uso obrigatório das máscaras teve inicio duas semanas após a declaração do estado de emergência e nessa altura a curva já estava em “aplanamento” https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/33/Epidemic_curve_COVID19_certain_countries.jpg , tornando assim, duvidosa a associação entre as máscaras e o brilharete Checo.

  4. Uns comentários. Quando se diz que os custos são moderados, quais custos são estes?
    Em termos de recursos, neste momento, máscaras são um recurso raro, portanto com um custo associado, elevado, e que deve ser reservado aos profissionais de saúde.
    Depois, parece-me que há um custo em termos de risco, que não vi ser suficientemente avaliado e comparado com o pressuposto benefício. Este advém da falta de educação para o público geral na forma como usar as máscaras e hábito em as ter. As máscaras devem ser colocadas e usadas correctamente. Abundam exemplos de pessoas a usar máscaras incorrectamente, a baixá-las para o queixo para falar ou comer, a tirar e mais tarde voltar a colocar a mesma, etc, etc. Depois, sabemos que é de extrema importância evitar tocar na cara ou fazê-lo após limpar as mãos. Vão as pessoas ter isso em mente quando querem compor a máscara, colocar, tirar, etc? E, em termos de comportamento, sabemos também que pessoas tendem a fazer compensação de risco e que se usam uma medida protectora, podem achar que estão mais à vontade para ter outros comportamentos com maior risco. Estes factores devem ser analisados em conjunto para se perceber se estamos a usar um elemento que pode ter valor protector, mas que pode potenciar comportamentos de risco que o tornam inútil ou ainda pior.

    1. Olá Hugo,
      Obrigado pelo contributo importante. Concordamos que não temos evidência robusta nem a favor nem contra portanto estamos em território subjectivo. Tanto a favor como contra.
      Os meus contra-argumentos aos seus são apenas dois:
      – os riscos que apresenta no comentário focam-se no risco de contágio individual quando esta medida a ter efeito é no âmbito de prevenção comunitária (eu não contagiar outros). Neste capítulo, virtualmente qualquer máscara serve ainda que há tecidos melhores que outros. O CDC está a estudar isso.
      – a existência de mais risco por maus comportamentos pelo uso de máscara (sair mais à rua, usar mal a máscara, etc..) é especulativo. Não temos dados para afirmar isso. Eu prefiro acreditar que campanhas educativas e o reconhecimento do esforço por parte de cada um de nós podem induzir comportamentos sociais colectivos interessantes.

      1. – Muitos indivíduos fazem a comunidade. Não sei qual o resultado de se ter pessoas infectadas a tomar medidas que evitam contágio de outros e as não infectadas a tomar as mesmas medidas, mas que no caso deles podem levar a uma maior possibilidade de contágio. Daí as recomendações que parecem ter em conta estes dois aspectos recomendarem o uso de máscara a quem se sabe estar infectado ou a quem tem contacto directo com pessoas infectadas e treino para uso das máscaras. E acho que a realidade é que nunca se vai conseguir estudar os diversos aspectos que influenciam a propagação do vírus de forma suficientemente independente para se tomar conclusões.
        – Neste caso particular não estou ao corrente de estudos sobre comportamentos de risco, mas há semelhantes em variadíssimas áreas e não me parece descabido aplicar essa característica humana também a este caso.

      2. Caro David, desculpa insistir no comentário: as máscaras cirúrgicas ainda são raras, ainda estão a ser roubadas nos hospitais, ainda estão racionadas. Não é fácil aceitar como dizem que a relação custo benefício é favorável. Como sustentamos que é necessário usar máscaras por todos, quando a maioria não tem acesso (pelo custo e pela indisponibilidade)?

        1. Olá João, obrigado por insistires porque a discussão é relevante.
          Parto de quatro premissas para dizer que faz sentido o uso de máscaras na comunidade:
          1 – que existem muitos assintomáticos que potencialmente provocam contágio sem saber
          2- que todos os esforços para diminuir o contágio comunitário são bem vindos e o estudo do JAMA sobre a distância que podem viajar gotículas (8m) vem sublinhar que qualquer barreira para estas gotículas podem ser relevantes.
          3- que para este efeito qualquer barreira serve, até mesmo as máscaras que se fazem em casa – excepto para doentes confirmados e profissionais de saúde;
          4 – que esta recomendação não retira máscaras cirúrgicas, ffp2 e ffp3 onde elas fazem falta. O teu contra-argumento é mesmo sobre esta premissa. Entendo que a falta de material nas instituições de saúde nesta fase da pandemia só se explicam por má gestão de recursos por quem responsável porque não é aceitável que tal carência na frente de batalha se verifique nesta fase. O Estado de Emergência permite a aplicação de determinadas medidas e o controlo sobre o material de protecção devia ser uma das que são prioritárias e se necessário devem ser requisitados como diz o Nuno num comentário mais abaixo. Agora, dito isto, esses erros no terreno não devem, na minha óptica que é a de simples “analista de bancada”, alterar os argumentos 1 a 3.

  5. De tudo isto, a ideia que pessoalmente retiro é a seguinte.

    Respiradores N95/FP2+ são para o pessoal da área da saúde, particularmente os mais expostos, em conjunto com outro material de protecção individual. Não devem sequer ser vendidos ao público, e os stocks que existem devem ser requisitados..

    Máscaras cirúrgicas, são para o restante pessoal da área da saúde, incluindo farmacêuticos; e doentes sintomáticos em ambulatório e seus tratadores. Incentivar aumentos de compras
    e produção. Quando for possível, alargar a todos os que acedem a unidades de saúde, e a todos os fazem atendimento ao público, restock de produtos, e eventualmente aos grupos de risco. Educar a população sobre o seu uso adequado.

    Não é muito diferente do que temos de recomendações até agora.

    Dito isto, talvez faça sentido promover a produção, venda e utilização de máscaras reutilizáveis, lavadas regularmente, e educar as pessoas. Explicar-lhes que estão fundamentalmente a proteger os outros, e que não é razoável ter máscaras descartáveis para todos. Porque usadas correctamente, implicaria produzir (e descartar) centenas de milhões de máscaras semanalmente.

    Fala-se muito dos países onde se usam máscaras, mas nesses países também se usam muitas máscaras reutilizáveis. Não são (só) máscaras cirúrgicas, compradas em caixas de 100, e muitas vezes mal (re)utilizadas.

  6. A última conclusão entra de novo na especulação:

    “– como grupo opinamos que existe um potencial benefício na recomendação de uso de máscaras por pessoas assintomáticas sempre que a mesma seja acompanhada da correcta utilização das mesmas, ”

    > sempre que a mesma seja acompanhada da correcta utilização das mesmas,
    extremamente difícil de garantir e de educar

    ainda acrescentando o risco da população correr às mascaras esgota-las para quem precisa realmente delas.

    É uma recomendação sem evidências que dificulta a operação dos profissionais de saúde e descredibiliza a DGS

    1. De novo obrigado, esta foi uma preocupação discutida dentro do grupo. A conclusão foi que neste momento muito dificilmente a população consegue competir com o Ministério da Saúde no que a aquisição de máscaras diz respeito. Dificilmente, se bem argumentada, descredibiliza a DGS.
      Em relação à dificuldade em garantir e educar sobre o correcto uso de máscaras: também o é para lavar as mãos e não por isso se deixa de fazer.
      Quanto à promoção do uso de máscaras “despromover” o distanciamento social: não tem de acontecer. Uma coisa não implica a outra
      Por último, sublinho que não falamos de medidas de protecção individual mas sim de medidas de protecção comunitária. O objectivo destas máscaras não é a protecção individual de quem as usa mas sim o impedir que gotículas nossas que saem ao falar, tossir ou espirrar, contaminem superfícies ou directamente outras pessoas.

      1. Aceito. A intuição parece que faz sentido.

        Mas continua a ser uma recomendação _sem_ evidência.

        O que se diz, portanto, é implementar uma medida sem evidências em tempo de crise. Hum.. Não sei. Tenho “mixed feelings” nisto. Abrir o precedente de fazer coisas na medicina moderna com falta de evidências abre um caminho muito perigoso.

        Obrigado pelas respostas e pelo artigo

        1. Obrigado. Chamar a atenção apenas que a ausência de evidência neste caso funciona nos dois sentidos. Quanto ao facto da nossa decisão ser feita em contexto de ausência de evidencia e por isso não passar de opinião: completamente de acordo. Aliás, isso é bem sublinhado no texto.
          Abraço

    1. Esta é a grande incógnita no momento que todos esperamos que os testes serológicos ajudem a entender. Mas há grandes indícios que existe uma boa quantidade da população que tem o vírus mas é assintomática, alguns destes acabam a desenvolver a doença, outros não, mas ambos podem contagiar.

  7. Tendo em conta a recomendação do CDC para um uso mais generalizado de máscaras, nomeadamente com o recurso às homemade, tenho visto algumas notícias relativas ao melhor método de lavagem das referidas máscaras. Tem sido noticiado que estas máscaras devem ser lavadas a temperaturas elevadas (https://www.foxnews.com/health/homemade-coronavirus-masks-tips-wash-face-covering-properly). Existe evidência científica que suporte que devem ser lavadas a temperaturas elevadas? Tinha a ideia de que a lavagem (mesmo a baixas temperaturas) com água e sabão/detergente é qb para solubilizar a camada lipídica do vírus e, consequentemente, romper a sua cápsula viral…

  8. NIOSH, 2010 desenvolveu um método para avaliar parâmetros específicos do modelo para a descontaminação com radiação ultravioleta C (UV-C, 254 nm) dos respiradores filtrantes N95 – FFRs [Cardinal N95-ML (Modelo A), Wilson SAF-T-FIT® Plus (Modelo B), 8210 de 3MTM (Modelo C), 1860 de 3MTM (Modelo D), 1870 de 3MTM (Modelo F) e Kimberly-Clark PFR95-174 (Modelo E)]. A transmitância UV-C foi quantificada para as diferentes capas compostas de seis modelos N95 FFR e usadas para calcular modelos específicos α-valores, a porcentagem da irradiância UV-C de superfície disponível para o meio filtrante final (IFM).Foram expostos cupons circulares, extraídos dos FFRs a partículas em aerossol contendo colifago MS2 e tratados com doses de UV-C específicas para IFM que variam de 38 a 4707 J m 2. Modelos expostos a uma dose mínima de 1000 J m 2 em IFM demonstraram pelo menos uma redução de 3 log (LR) em MS2 viável. Os tempos de exposição específicos do modelo para atingir esta dose em IFM variaram de 2 a 266 min.Entre as conclusões destacaram que o UV-C transmite dentro e através dos materiais dos N95-FFRs. A LR de MS2 foi uma função das doses de UV-C em IFM específicas do modelo.
    Pelo tanto, os respiradores das máscaras de filtro estão em alta demanda durante os surtos de doenças infecciosas, potencialmente levando à escassez do subministro. A reutilização de FFRs descartáveis após descontaminação foi discutida como uma possível estratégia de remediação, mas até o momento há falta de evidência científica que o suporte. Os métodos descritos aqui podem ser usados para avaliar a probabilidade de que a descontaminação por UV-C será bem-sucedida em modelos específicos mascaras FFR s.

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