Da (a)normalidade

Fora da caverna

Da (a)normalidade

Armando Brito de Sá

“We don’t know what kills polio germs,” Dr. Steinberg said. “We don’t know who or what carries polio, and there’s still some debate about how it enters the body. But what’s important is that you cleaned up an unhygienic mess and reassured the boys by the way you took charge. … You must understand that a lot of us who are much older and more experienced with illness than you are also shaken by it. To stand by as a doctor unable to stop the spread of this dreadful disease is painful for all of us. A crippling disease that attacks mainly children and leaves some of them dead — that’s difficult for any adult to accept. You have a conscience, and a conscience is a valuable attribute, but not if it begins to make you think you’re to blame for what is far beyond the scope of your responsibility.”

He thought to ask: Doesn’t God have a conscience? … But instead he asked, “Should the playground be shut down?”

“You’re the director. Should it?” Dr. Steinberg asked.”

Philip Roth. Nemesis, 2010

O que é ser normal? Estatisticamente o conceito foi definido  e tem sido discutido por múltiplos matemáticos. Em parte do imaginário coletivo a normalidade é representada pelo gráfico da curva em sino. Para o matemático, não ser normal é encontrar-se fora de limites definidos na referida curva (ou, pelo menos, é o que costumamos dizer. A realidade é um bocadinho mais complicada). Para o médico, “normal” é um resultado que se encontra dentro do intervalo de referência de um teste, sendo que a partir desse ponto as interpretações de normalidade divergem.

Do ponto de vista social define-se normal como “em conformidade com a norma” isto é, com o uso comum. Sendo os humanos utilizadores constantes de vieses parte-se rapidamente para a ideia de que ser normal é ser igual aos outros. Nada poderia estar mais distante da realidade. Olhemos à nossa volta: todos gostamos de restaurantes, com exceção dos que não gostam; todos comemos peixe ou carne, com exceção dos que não comem peixe ou carne; todos gostamos de assistir a espetáculos, com exceção dos que preferem ficar em casa. E os espectáculos? Qual é a norma? A norma dos espetáculos, na verdade, é não existir uma norma única em termos de estrutura, conteúdo, forma, audiência, performance ou intervenientes. Podemos afirmar que a verdadeira normalidade social é a diversidade.

Várias normas têm como finalidade a sobrevivência da espécie. A análise de rituais religiosos mais antigos permite identificar práticas tendencialmente benéficas para a saúde humana: por exemplo, a proibição do consumo de carne de porco por algumas religiões estaria associada à redução das infecções por parasitas infestantes das espécies de porcos das regiões de origem dessas religiões. Muitos outros usos e costumes dos povos constituem estratégias de sobrevivência individual e colectiva,invariavelmente como resposta ao mundo que as rodeia. Nas sociedades humanas contemporâneas, caracterizadas por alta complexidade, construímos toda uma constelação de normas que promovem, mais uma vez, a sobrevivência humana individual e colectiva.

No momento em que surge uma ameaça global a essa sobrevivência as pessoas reagem, individual e coletivamente. Essa reação nem sempre é inteiramente racional, podendo resultar em efeitos adversos porventura mais nefastos que a ameaça original.  São disso exemplos, na presente pandemia, o atraso na administração de vacinas, a toma hipoteticamente profilática de medicamentos ou substâncias cujo efeito é nulo ou eventualmente nocivo, o não recurso a cuidados de saúde necessários por receio de outros problemas eventualmente remotos ou improváveis, ou a adoção de comportamentos considerados seguros mas que na verdade poderão agravar o problema primordial.  Em simultâneo surgem movimentos lamentando a perda de alegadas “liberdades” de que ainda há pouco tempo os cidadãos usufruiam.  Daí a importância de normas que, ainda que evoluindo rapidamente, confiram à maioria das pessoas uma maior probabilidade de ultrapassagem das crises tão incólumes quanto possível.

As ameaças globais constituem-se ainda como oportunidades para as tentações totalitárias. A história humana está repleta de exemplos desta natureza, de extremismo políticos e/ou religiosos, ambos formas de controlar as populações e de as submeter a uma norma de comportamento única, e inviolável segundo os seus cultores. Os modelos ditatoriais de pensamento ou comportamento único são, na verdade, a mais perversa forma de normalização, com resultados invariavelmente catastróficos e, para alguns contraintuitivamente, mais rapidamente conducentes ao caos do que sistemas complexos, móveis e reactivos às mudanças sociais. Os defensores da norma única são, depois dos fenómenos naturais, os principais inimigos das sociedades humanas.

A este quadro complexo junta-se a ignorância histórica. Períodos de alguns anos de paz relativa, ou nas quais os conflitos e doenças parecem algo distante, criam uma falsa sensação de segurança e invulnerabilidade. O fragmento de texto em epígrafe toma como ponto de partida um surto de poliomielite ocorrido no Verão de 1944, nos Estados Unidos da América, sendo que até ao surgimento da vacinação na década de 50 do século passado estes surtos ocorriam regularmente todos os verões. As histórias, com pequenas variações, repetem-se. É normal.

Não existe, assim, um “novo normal”. É uma ilusão fugidia. Do ponto de vista humano conseguimos, com sorte, alguns anos dessa ilusão; do ponto de vista cósmico essa estabilidade é menos que instantânea. A nossa sobrevivência não depende dessa estabilidade: depende inteiramente da nossa capacidade de mudar sempre que necessário e de nos mantermos em movimento.


Armando Brito de Sá no twitter

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3 comentários “Da (a)normalidade

  1. A adaptabilidade é mais importante para viver o presente e antever a preparação do futuro do que a vontade saudosista, resistente à mudança, que deseja o regresso à impossível “normalidade”.

  2. Obrigada Armando pelo belo e simples texto. A nossa sobrevivência depende da nossa capacidade de mudar e de nos adequarmos às novas realidades e necessidades . O movimento tem um propósito , é intencional e tem uma finalidade construtiva. Nada é impossível de mudar

    Desconfiai do mais trivial,
    na aparência singelo.
    E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
    Suplicamos expressamente:
    não aceiteis o que é de hábito
    como coisa natural.
    Pois em tempo de desordem sangrenta,
    de confusão organizada,
    de arbitrariedade consciente,
    de humanidade desumanizada,
    nada deve parecer natural.
    Nada deve parecer impossível de mudar.
    Bertolt Brecht

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