Decisões clínicas colaborativas e a qualidade da informação que as fundamentam

No Evidentia Médica defendemos que decisões clínicas devem promover a integração da experiência clínica dos profissionais de saúde com a melhor prova científica e os valores e preferências dos doentes. Esta colaboração deve atender a especificidades do contexto em que decorrem essas decisões como os recursos disponíveis, a literacía dos doentes e as capacidades e ferramentas comunicacionais dos intervenientes.
Estas decisões clínicas acontecem durante o encontro entre duas personagens: os doentes (que têm ideias, expectativas, receios, agenda própria) e os profissionais de saúde (também com as suas ideias, expectativas, receios e agenda própria). Ambos têm informação relevante que deve ser considerada nessas decisões. Só respeitando essa informação podemos respeitar a autonomia, o direito à autodeterminação e individualidade do doente e com isso promover verdadeiras decisões colaborativas.

No fundo, defendemos os príncipios daquilo que ficou conhecido como Medicina Baseada em Evidência, ou como prefiro denominar, baseada em Ciência. Para saber mais sobre este tema específico recordo o episódio #2 do podcast – Medicina Baseada Em Ciência Com Excepção Da Astrofísica E Física Quântica bem como este texto de resposta a algumas críticas a que a MBE é submetida O que é Medicina Baseada em Evidência? – respondendo ao Dr. Juan Gérvas

Mas o que me leva a escrever hoje não é recordar os princípios da MBE mas sim falar de um recurso essencial para ela aconteça: a informação médica e a qualidade da mesma. Para que decisões colaborativas possam acontecer necessitamos de informação válida, compreensível e disponível no momento da consulta.

O Evidentia Médica tem como missão justamente proporcionar informação médica relevante e válida para decisões colaborativas entre médicos e doentes

Em 2019, a nossa newsletter Evidentia da Semana dividiu os artigos que considerámos relevantes de acordo com a tipologia de artigo (a metodologia de investigação clínica), algo que explicamos em detalhe neste artigo publicado na Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar.

Há duas ideias muito relevantes que estão subjacentes a esse artigo:

1 – que existe uma pirâmide de evidência que nos diz que para responder a dúvidas clínicas reais e concretas devemos usar em primeiro lugar documentos ou ferramentas de sumários ou síntese de evidência (guidelines e revisões sistemáticas são exemplos). Como tudo na vida, há documentos e ferramentas que são bem feitos e os que não têm qualidade nenhuma pelo que recordamos que pelo simples facto de estarmos perante uma norma de orientação clínica não significa que as suas recomendações sejam válidas. Temos de ter confiança na fonte e isso não deve ser uma questão de opinião, deve ser uma questão de método.

2 – que diferentes tipos de dúvidas clínicas requerem diferentes metodologias de investigação para lhes dar a devida resposta – vejam o quadro resumo abaixo para entender melhor esta ideia que não nos cansaremos de sublinhar:

Sentimos no entanto que para tornar a informação acessível a todos na consulta (profissionais de saúde e doentes) e com isso permitir decisões verdadeiramente colaborativas é necessário um passo extra e maior simplificação da informação.

Foi com isso em mente que criámos um esquema de cores que passaremos a usar nas nossas newsletter Evidentia da Semana e que explicamos abaixo usando uma série de postais e um cartaz resumo que podem naturalmente usar e divulgar (também podem criticar e sugerir alterações ou correções claro!).

 

 

A verde identificaremos normas de orientação clínica e as revisões sistemáticas e meta-análises. Consideramos que que estes documentos, quando elaborados de acordo com a melhor metodologia, proporcionam informação relevante para fundamentar decisões colaborativas.

 

 

A amarelo identificaremos estudos primários feitos em doentes. Consideramos que por muito bom que seja o método de um estudo, decisões colaborativas não devem ser feitas baseadas exclusivamente num único estudo mas não excluímos que a informação é potencialmente relevante.

 

 

A vermelho identificamos estudos em animais ou laboratório bem como estudos que reflectem opiniões ou relatos de casos. Consideramos que estes estudos proporcionam informação insuficiente para fundamentar decisões colaborativas.

 

O seguinte quadro resume tudo:

Os diferentes cartões:

2 comentários “Decisões clínicas colaborativas e a qualidade da informação que as fundamentam

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