Desinformação em tempos de pandemia

por David Rodrigues

A propósito de uma conversa com a Felisbela Lopes da Universidade do Minho:

O que é desinformação em tempos de crise e de incerteza?

É verdadeiramente uma pandemia que me parece que está ainda mais fora de controlo que a COVID19. Os números não enganam, as notícias falsas e a desinformação têm vindo a aumentar nas últimas semanas. Desde já me confesso que não sou um perito na matéria mas é um assunto que me preocupa muito. Mexe com as crenças das pessoas ao ponto de interferir em eleições e com isso abanar os próprios pilares da democracia ou levar a comportamentos perigosos e meter em causa a saúde própria e dos outros como o caso das vacinas nos tem ensinado. Os tempos actuais são especialmente propícios ao aparecimento de notícias falsas pois vivemos num contexto em que se juntam elementos numa mistura com elevado potencial “explosivo”. Vejamos:

  • A incerteza, e o ser humano é muito mau a lidar com a incerteza, não gosta, necessitamos de respostas e então andamos sistematicamente à procura de informação que acalme essa angústia da incerteza.
  • O medo. Houve a determinada altura a sensação que estávamos altamente sujeitos a que algo que não controlamos, algo invisível, nos infectasse e eventualmente morréssemos. Ora não há maior motivador de comportamentos que o medo.
  • O acesso a informação nunca foi tão grande. Se há décadas atrás as pessoas eram informadas através dos meios de comunicação main stream (jornais, radio e tv) hoje em dia temos acesso a virtualmente toda a informação do mundo de forma imediata. Mas se nesses tempos havia, nuns mais que outros, rigor editorial e os jornalistas eram responsáveis de selecionar e verificar as notícias, hoje isso não acontece. Não há filtro. Então é muito fácil de fazer disseminar informações falsas: basta acalmar a incerteza e apelar ao medo e ir ao encontro do sistema de valores e ideias que as pessoas têm. E este é outro ponto relevante. É muito fácil de encontrarmos informação que valida as ideias e valores que as pessoas têm. Os próprios algoritmos das redes sociais reforçam isso. Então as pessoas começam a ver e a reforçar ideias que lhe fazem sentido.

Neste contexto, com esta mistura é muito fácil fazer correr uma teoria da conspiração ou uma ideia de cura milagrosa que muitas vezes até têm um racional biológico ou partem de alguém com credibilidade (muitas vezes nem isso). Mas é justamente nestes tempos que a medicina e as decisões de saúde pública devem tentar ser baseadas em argumentos com forte sustentação na evidência. Ou então, na sua ausência, no consenso alargado assente numa grande dose de razoabilidade e bom senso, algo que também teima em aparecer nestes tempos.

A propósito do comportamento das entidades oficiais e governamentais a informar e a desinformar.

A informação que advém destas entidades é da maior importância. Mas há duas coisas que creio que as instituições governamentais e com responsabilidade na gestão da pandemia ainda não entenderam que são os tempos e os canais da informação. Creio que demoraram muito tempo a reagir e a aperceber-se que tinham de diversificar canais para chegar a toda a gente.

Photo by Markus Winkler on Unsplash

Aprofundando um pouco mais: não podem continuar a viver com “tempos de reacção” de há 2 décadas atrás. Não quero com isto dizer que ao mínimo rumor o Ministério ou a DGS devem reagir. Não, mas quando se torna “assunto público” que algo de mais sério está a acontecer, nem que seja no outro lado do planeta, torna-se necessário reagir e planificar. Nem que seja transmitir a confiança que “estamos atentos e temos um plano”. Não só não aconteceu como por vezes a situação foi desvalorizada. Repare no Evidentia sempre o objectivo de passar informação em linguagem simplificada mas essencialmente dirigida a médicos. Comecei a receber feedback que me dizia que uma boa parte da audiência não eram médicos nem enfermeiros. Alguns eram da área da saúde mas de gestão, outros eram farmacêuticos mas depois começou a haver uma audiência não médica. Jornalistas e alguns era doentes meus ou simplesmente gente interessada em informação médica. Comecei a ver que as pessoas necessitavam de entender o que estava a acontecer e necessitavam de informação simples “JÁ”. Senti a necessidade de fazer folhetos para informar a população e fiz alguns posts relacionados. O objectivo não é dizer que “eu vi” o que quer que seja antes de ninguém. Digo isto porque “senti a necessidade” de o fazer porque não havia outra fonte a fazê-lo em português. Não foi necessário reinventar a roda. Agarrei na informação da OMS e adaptei. Quando a DGS avança com folhetos nas redes sociais já eu tinha 5 feitos sobre vários temas a circular no instagram e FB. O que me leva ao segundo ponto. Os canais:

Os canais habituais foram e são uma fonte de informação relevante. E tenho a percepção que saíram reforçados como fonte de informação credível. No global, fizeram um óptimo trabalho. Mas mesmo nesses creio que a DGS demorou muito tempo a avançar em massa. No entanto acresce que uma larga proporção da população não está a ver telejornais nem a ler jornais. As redes sociais são essenciais.  Hoje em dia se reagimos 2 dias depois das coisas acontecerem já vamos tarde. Já a informação se disseminou de forma autenticamente viral e a reacção chega tarde. Este é um capítulo em que as autoridades foram melhorando ao longo da pandemia e certamente foram retiradas lições para o futuro.

Sublinho no entanto uma ideia: tenho imenso respeito e admiração por quem todos os dias dá a cara e tenta explicar de forma simples fenómenos que são muito complexos e, lá está, incertos. Percebo que há a tentação a evitar dizer “não sei” para não lançar o caos, mas há momentos em que dizer “não sei” é o mais adequado. Posso dizer “não sei porque ninguém ainda sabe mas temos um plano para o cenário A e outro para o B”.

Sobre a importância dos especialistas médicos e dos cientistas.

Os especialistas são essenciais para entender o que se está a passar. Na minha opinião a este respeito a pandemia está a ensinar-nos duas coisas. Por um lado que há todo um movimento de solidariedade que faz com que cientistas partilhem informação e dados de uma maneira nunca antes vista. Houve, nas semanas iniciais da pandemia uma tentativa genuína de encontrar as melhores respostas e soluções. Foi assim que vimos como o IMM replicava os testes numa altura em que eles escasseavam. Outros tentavam entender e sequenciar o vírus. Outros dedicaram-se a reunir informação para facilitar a vida a quem está na linha da frente (foi o nosso caso). Repare, as grandes revistas médicas tornaram os artigos relacionados com a pandemia de livre acesso. Revistas como o NEJM, a JAMA, o LANCET ou o BMJ. E esta foi a lição boa: a de saber que juntos somos mais fortes e que o conhecimento devia ser algo livre e de todos e não deve haver barreiras económicas à partilha de conhecimento que nos beneficia a todos. Também foi bom que tivessem aparecido novas figuras públicas ligadas à ciência e a explicar conceitos difíceis de epidemiologia à população. Por exemplo a Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública fez e continua a fazer um trabalho fenomenal nesse sentido. Veja-se a parceria que fizeram com o jornal Público ou mesmo o projecto COVID19PT Ciência que os juntou com a Evidentia Médica e a UpHill nos primórdios mais iniciais da pandemia. Uma palavra de destaque e admiração para o Ricardo Mexia, presidente da ANMSP que esteve incansável na divulgação à população e a determinado momento parecia que eram 3 gémeos tal a capacidade que teve em aparecer em todo o lado. E fê-lo de forma muito eficaz. Mas outros elementos da ANMSP como o André Peralta ou a Ana Beatriz Nunes fizeram contributos mais discretos mas igualmente essenciais.

Mas há outra lição a retirar: de repente houve uma epidemia de especialistas. De repente todos somos epidemiologistas. Todos desenhamos modelos que antecipam o futuro. Todos temos uma opinião “especializada”. Deu-se um bocado a sensação que nunca a humanidade tinha enfrentado nada disto então estamos a partir do zero e todos podemos dar um contributo e ser especialista no tema. Nada mais errado. Obviamente todos são livres de ter opinião e todos devemos contribuir para uma discussão construtiva. Mas não partimos do zero. Há pessoas que dominam estas situações e sabem o que fazer. Há pessoas que estudaram situações semelhantes e sabiam como actuar. E creio que, com honrosa excepção para alguns como já anteriormente referi, de uma forma geral, a voz de grandes especialistas ficaram diluídas no meio do ruído e deviam ter tido mais destaque. Temos grandes epidemiologistas e entendidos em matéria de Saúde Pública em Portugal.

Lugar da informação jornalística em pandemia

Essencial. Devem funcionar com o filtro que sempre foram e dar destaque às notícias e figuras que devem ter esse destaque. Com óbvias excepções eu acho que temos um jornalismo de altíssimo nível e seriedade. Creio que souberam dar visibilidade às mensagens chave relevantes ainda que às vezes num tom quase a roçar o infantil. A criticar algo, criticaria isso mesmo, o tom, às vezes quase paternalista e a assumir que do outro lado estavam pessoas que não aprendiam ao longo dos dias alguns dos conceitos básicos. Tenho uma visão enviesada claro, mas fiquei várias vezes com essa sensação.
Mais do que nunca a função do jornalista é essencial. As pessoas têm de saber que existem pessoas que zelam pela informação, fidedigna e de confiança. Da mesma forma que nós médicos zelamos pela saúde e bem estar das pessoas os jornalistas devem zelar pela verdade e garantir que recebemos a melhor informação, a mais factual e válida.

Sobre o futuro e a desinformação.

Vão sempre existir notícias falsas e desinformação. Há sempre pessoas que lucram com os medos de outros. As estatísticas dizem-nos isso mesmo. Um das parcerias que o Evidentia fez recentemente foi com o MediLab do ISCTE, participando inclusivamente na plataforma que foi recentemente lançada, o covidcheck.pt, e os números que nos enviam confirmam justamente isso: que as notícias falsas têm vindo sempre a aumentar ao longo destas semanas. E tudo indica que vão aumentar porque se já existem em relação ao que já aconteceu, à medida que o ruído aumenta mais fácil fica de lançar mais ruído e desinformação.

Mas simultaneamente creio que há nesta pandemia oportunidade de elevar o nível da literacía científica. Temos de aproveitar e falar de o que é uma vacina ou um medicamento? Como se valida que funciona? O que é um teste diagnóstico ou que é um rastreio. O que são riscos? O que é um estudo científico e fazer entender que nem todos os estudos são bons ou válidos. Ou que não é pelo facto de uma qualquer personagem pública afirmar o que quer que seja que torna a mensagem verdade. Veja o caso da hidroxicloroquina por exemplo. Mas lá está, voltamos à questão dos especialistas e das opiniões. Repare, eu para construir uma casa ou comprar um carro, por mais que me informe, chega um momento em que tenho de confiar em alguém. Temos de ter fontes nas quais confiamos. É altura da DGS e o Governo levarem muito a sério este assunto e afirmarem-se como fontes fiáveis de informação. Na saúde, a desinformação custa vidas pelo que deve ser levada muito a sério. 

Um absurdo relacionado com a pandemia:

Vamos saltar o Donald Trump. No meio de tanta coisa surreal que tem acontecido, por exemplo o assunto do 5G custa-me a acreditar que ainda circule. Há de facto pessoas muito originais mas esta é tão absurda que inicialmente disse “ninguém vai levar isto a sério”. Mas ao ver que ainda hoje há notícias sobre isto fico a pensar que mais que um rumor vindo da originalidade de alguma mente há mesmo uma agenda detrás destas notícias que tenta de alguma forma colar este tema à Huawei e à China para manter narrativas xenófobas e agendas económicas. Ou seja, são mesmo desinformação.

Sugestão de livro:

Recomendo vivamente o livro “Factfullness” de Hans Rosling – gosto da forma positiva e optimista como usa a evidência para nos fazer ver que não estamos tão mal e também o banho de humildade que nos impõe ao fazer ver que não sabemos imensa coisa.

Este texto foi escrito na preparação de entrevista realizada no dia 20 de Maio. Pode ver o vídeo da mesma aqui:

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2 comentários “Desinformação em tempos de pandemia

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