Episódio#14 – Vacina da gripe

Numa altura em que se espera que a gripe apareça em grande, dedicamos um episódio a rever a prova científica à volta da vacina da gripe.

Não percas o documento de apoio que fizemos com os Números Necessários de Vacinar para diferentes populações disponível abaixo e na página de ferramentas de apoio à decisão.

gripe

Algumas das referências mencionadas:

DGS – Norma nº 018/2018 de 03/10/2018 – Vacinação contra a gripe. Época 2018/2019

Revisões Cochrane:

6 comentários “Episódio#14 – Vacina da gripe

  1. evidentiamedica.com/2018/08/15/apoio-a-decisao-clinica- > “That Page cannot be found!​”

    muito obrigado pelo episodio

    gostaria de colocar a seguinte questão: recomendam a um adulto saudável tomar a vacina da gripe? já que há uma diminuição do risco de doença de 2,3 para 1%

    1. Obrigado Pedro pelo comentário.
      O risco da doença é baixo e a própria doença em si num adulto saudável é ligeira e curta. Nessa população a vacina não demonstrou reduzir “coisas relevantes” como hospitalizações*, dias de ausência a trabalho* e muito menos mortalidade claro.
      Por isso, todas as recomendações internacionais vão no sentido de não fazer em adultos saudáveis.

      * os resultados apontam uma possível redução muito ligeira mas a confiança em que esses resultados são verdadeiros é muito baixa (vê-se pelo intervalo de confiança e pela classificação que os autores fazem da prova científica). O texto original é “Vaccination may lead to a small reduction in the risk of hospitalisation in healthy adults, from 14.7% to 14.1%, but the CI is wide and does not rule out a large benefit (RR 0.96, 95% CI 0.85 to 1.08; 11,924 participants; low‐certainty evidence). Vaccines may lead to little or no small reduction in days off work (‐0.04 days, 95% CI ‐0.14 days to 0.06; low‐certainty evidence).”

      1. Certo, eu ouvi o episódio e fiquei com essa ideia (não sou da área de saúde).

        Se possível gostaria de voltar a colocar a questão de outra forma:
        Há uma diminuição do risco de doença aproximadamente de 2,3 para 1%, ou seja, pouco relevante mas ajuda.

        A vacina custa 5-7€. Se conseguir evitar uma gripe, não infeto ninguém (inclusive pessoas do grupo de risco), não perco dias de trabalho, não tomo comprimidos, não tenho o desconforto, etc.

        O que perco em tomar? mesmo que ganhe quase nada.

        Nota: nos EUA recomendam tomar a partir dos 6 meses

        1. Pedro, é uma excelente pergunta. Atenção que há um pressuposto na sua questão que provavelmente não é verdade: quando diz “não infeto ninguém (inclusive pessoas do grupo de risco)”. Conforme discutimos no episódio, não há provas de que isso realmente aconteça, pois quando vacinamos profissionais de saúde não há diminuição do risco de gripe nos doentes a seu cargo.

          O que pode perder então? Fazer a vacina dói – é uma agulha e pode haver dor local nas horas / dias seguintes. Pode haver outros efeitos secundários, como febre (1 em cada 125 pessoas vacinadas). Se pagar a vacina do seu bolso, pode querer gastar esse dinheiro noutra coisa. Se for o estado ou uma empresa a pagar isso toma uma importância maior, pois é um custo de oportunidade (dinheiro que podia ser gasto noutra coisa que conduzisse a mais ganhos em saúde). Por exemplo, uma empresa pode investir X em vacinas da gripe para os seus trabalhadores ou gastar o mesmo dinheiro em máscaras e desinfectante – não sabemos qual das estratégias pode levar a menos faltas por doença.

          Depois ainda há um outro aspecto teórico, mas não há provas sólidas de que seja mesmo assim e o que vou dizer a seguir é altamente especulativo. A imunidade conferida pela vacina contra a gripe desaparece rapidamente (poucos meses), enquanto a imunidade pela infecção natural dura décadas ou mesmo a vida toda. Atenção que esta imunidade natural é só parcialmente protectora: podemos ir tendo várias gripes ao longo da vida, mas a intensidade dos sintomas e a gravidade da doença pode ser menor quando o vírus daquele ano é parecido com um que nos tenha infectado no passado. É uma das teorias que existe para explicar porque a gripe pandémica de 2009 foi mais complicada em adultos jovens e não tanto nos idosos. Isto quer dizer que uma pessoa que vá tendo gripe enquanto é mais jovem (quando o risco de complicações é menor), pode teoricamente estar mais protegida quando for mais velha e contactar com vírus parecidos, para os quais tem imunidade parcial. Volto a sublinhar: teórico e especulativo, não sabemos.

          Em relação aos EUA, há uma diferença grande entre o que recomendam e o que fazem na prática. No campo das vacinas os EUA têm recomendações para vacinar muito mais pessoas contra muito mais doenças do que a generalidade dos países europeus. O problema é que depois têm taxas de cobertura muito baixas e não conseguem ter imunidade de grupo.

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