Evidence Based Brunch #01_2020

Nas resoluções de ano novo, há coisas que queremos manter! No dia 11 de Janeiro de 2020 juntámos em Lisboa, no 39 Degraus (Cinemateca Portuguesa), 10 entusiastas de boas leituras (e boa comida!) para mais uma edição do Evidence Based Brunch.

Sentados à mesa mais uma vez nos juntámos para ler criticamente um artigo previamente selecionado. Se a leitura crítica já é algo que nos motiva, imaginem o que se passa quando acrescentamos boa companhia e boa comida a esta receita! 🙂

Desta vez, debruçámo-nos sobre um estudo coorte.

Segue a crítica da revisão discutida:

Haverá associação entre status socioeconómico e incidência de mortalidade precedida por condições adversas de saúde? 

Por Ana Catarina Esteves

Pergunta Clínica

Podem as desigualdades sociais (educação, ocupação profissional e literacia) levar a um aumento da mortalidade precedida por condições adversas de saúde (multimorbilidade, fragilidade e incapacidade)?

Veredicto Evidentia Médica

Os fatores socio-económicos podem levar ao aparecimento de condições adversas de saúde, mas sem associação direta relativamente à mortalidade. A multimorbilidade é a condição adversa de saúde que apresenta uma associação mais forte com a mortalidade destes doentes. Dentro dos fatores sócio-económicos, destaca-se a ocupação do doente, uma vez que se associa ao aparecimento de condições adversas de saúde. Por outro lado, um nível ocupacional baixo foi associado a uma mortalidade aumentada, contudo esta não foi precedida por uma condição adversa de saúde.

Qual a relevância dessa pergunta?

Existe evidência forte de que as desigualdades sociais existem nas condições adversas de saúde e na mortalidade. Existe também alguma evidência de que as desigualdades socias aumentam com a esperança média de vida nalguns países de elevado rendimento. Contudo deconhece-se se estas desigualdades sociais podem aumentar a incidência de condições de adversas de saúde e a sua progressão para mortalidade.

Quem financiou?

UK Medical Research Council; National Institute on Aging; National Institutes of Health; British Heart Foundation

Que tipo de pergunta faz este estudo?

Malefício.

Considerações metodológicas

Da coorte Whitehall II (total 10.308) foi utilizada uma amostra de 6425 pessoas, tendo sido caraterizado o género, a etnia, o estado marital, condições sócio-económicas, como a educação, a ocupação e a literacia. Por ausência de informação e de forma a estimar dados omissos foi utilizado a ponderação da probabilidade inversa em fatores como os comportamentos de saúde (tabagismo, consumo de álcool, atividade física, consumo de frutos e vegetais), os fatores de risco cardiometabólicos (índice de massa corporal, pressão arterial sistólica, diastólica, colesterol), saúde mental, condições crónicas e mortalidade dentro do período de estudo entre 1985-2017. O acompanhamento da coorte foi de cerca de 76.7%, pelo que não foi considerado completo. 

O desenho da investigação pretende abordar três percursos evolutivos, tendo em conta o outcome primário que é a mortalidade por todas as causas dentro do período do follow-up (média de 23.6 anos). 1. Transição A: ocorrência de uma das condições adversas de saúde (multimorbilidade, fragilidade e incapacidade); 2. Transição B: ocorrência de morte; 3. Transição C: ocorrência de morte precedida por uma das condições adversas de saúde.

As condições sócio-económicas foram divididas em níveis alto, médio e baixo, sendo que as comparações se fizeram entre o alto e o baixo. Neste contexto, esta é uma comparação limitativa para se considerar que existe um verdadeiro gradiente dose-resposta.

Quais são os resultados?

Na transição C (morte precedida por uma das condições adversas de saúde): as condições sócio-económicas, como educação (HR 0.89 [95% IC 0.78-1.32]), ocupação (HR 1.13 [95% IC 0.95-1.34]) e literacia (HR 0.99 [95% IC 0.94-1.04]) não foram associadas a mortalidade.

A multimorbilidade teve a associação mais forte com mortalidade (HR 4.12 [95% IC 3.41-4.98]) e a incapacidade teve a associação mais fraca (HR 1.73 [95% IC 1.34-2.22]). 

De acordo com os resultados obtidos conclui-se que as desigualdades sociais podem ser a causa do aparecimento das condições adversas de saúde, contudo não têm impacto na mortalidade destes doentes. Dentro das três condições adversas de saúde estudadas, a multimorbilidade é aquela que tem uma maior associação com a mortalidade, sendo a força desta associação semelhante entre os grupos sócio-económicos. Assim, os autores consideram ser a multimorbilidade o fator a ser trabalhado preventivamente de forma a melhorar a saúde da população e a prolongar a sua esperança média de vida.

Como posso aplicar os resultados aos meus doentes?

Considero a metodologia do estudo reprodutível. Penso que este estudo é importante pois realça os fatores sócio-económicos, como causa das condições adversas de saúde. A multimorbilidade está associada a um aumento da mortalidade e, por isso, os autores apontam para a necessidade de atividades preventivas a este nível. A saúde não é apenas a ausência de doença ou enfermidade, mas sim um estado de completo bem estar físico, mental e social. Desta forma, ao concluir que os fatores socio-económicos, na qual a profissão se inclui, estão relacionados com condições adversas de saúde remete-me para a minha prática clínica, no número de pessoas que pedem ajuda por problemas no trabalho e, de que forma as poderia ajudar, para além daquelas que imediatamente estão ao meu alcance.

Referência bibliográfica

Dugravot, Aline, et al. «Social Inequalities in Multimorbidity, Frailty, Disability, and Transitions to Mortality: A 24-Year Follow-up of the Whitehall II Cohort Study». The Lancet Public Health, vol. 5, n. 1, Janeiro de 2020, pp. e42–50. DOI.org (Crossref), doi:10.1016/S2468-2667(19)30226-9

https://www.thelancet.com/journals/lanpub/article/PIIS2468-2667(19)30226-9/fulltext
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