Mulheres obesas em pós-menopausa: Quais os efeitos a longo prazo da restrição calórica severa vs. moderada ao nível da massa magra e restante composição corporal? – Notas de Evidentia #022020

Por Inês Mendes Correia

Pergunta clínica

Nas mulheres obesas pós-menopausa, quais os efeitos a longo prazo (12 meses) da restrição calórica severa vs. restrição calórica moderada na massa magra e outros aspectos da composição corporal?

Veredicto Evidentia Médica

A restrição calórica severa é mais efetiva na perda de peso e de massa gorda total, demonstrando igualmente maior diminuição da massa magra total, contudo proporcional à diminuição de massa gorda total, quando comparada com a restrição moderada. No entanto, pelos efeitos demonstrados ao nível da diminuição da densidade mineral óssea a nível femoral, deve ser tida especial cautela na sua implementação em mulheres pós-menopausa que tenham já diagnosticada osteopenia ou osteoporose.

Qual a relevância dessa pergunta?

A obesidade é um dos grandes problemas de saúde pública da atualidade e são necessárias estratégias efetivas para o seu tratamento. Os tratamentos dietéticos mais efetivos são os que fazem restrição calórica severa, <800 kcal/d (<3350 kJ/d), o que envolve substituir todos (ou quase todos) os alimentos por produtos como batidos, sopas ou barras. Estes demonstraram uma maior diminuição do peso a curto e longo prazo, quando comparadas com dietas baseadas em alimentos que implicavam restrição calórica moderada (~500 kcal/d (2100 kJ/d)). No entanto, apesar de serem efetivos e acessíveis, um número importante de guidelines a nível internacional mostra cautela na recomendação de dietas de substituição alimentar total, não sendo estas usadas rotineiramente pelos profissionais de saúde. Este facto pode dever-se aos efeitos adversos reportados: queda de cabelo, obstipação, cefaleias, tonturas, fadiga e litiase biliar; a falta de prática e a limitação de recursos para a avaliação pré e durante o tratamento; preocupação com os efeitos adversos da restrição calórica severa na composição corporal, quando comparada com a restrição moderada. Os estudos pré-existentes apresentavam limitações significativas: não eram RCT, duração limitada (6 dias a 6 meses), não eram desenhados para estudo da saúde muscular e óssea.

Quem financiou?

Apoio monetário: National Health and Medical Research Council of Australia, University of Sydney, Endocrine Society of Australia, Australian Government Department of Education and Training, The Rebecca L. Cooper Medical Research Foundation, Sydney Medical School Foundation, Heart Research Institute, The Frecker Family Trust, Parker Hughes Bequest, National Heart, Lung, and Blood Institute. A Prima Health Solutions (empresa de substitutos alimentares) contribuiu com a venda de batidos abaixo do preço de venda ao público. Os autores reportam que esta parceria só foi estabelecida após a criação do protocolo de investigação. 

Que tipo de pergunta faz este estudo?

Tratamento

Considerações metodológicas

Foi realizado um ensaio clínico aleatorizado unicêntrico com duração de 12 meses. Foram incluídas 101 mulheres residentes numa área metropolitana de Sidney, Austrália, com idades entre os 45 e 65 anos, em pós-menopausa há pelo menos 5 anos, com IMC entre 30 e 40 e que realizavam menos de 3 horas de atividade física estruturada por semana.

Os doentes foram estratificados, por faixa etária e IMC e depois aleatorizados 1:1 para uma de duas intervenções: 12 meses de restrição calórica moderada, com uma dieta baseada em alimentos saudáveis (intervenção moderada) ou 4 meses de restrição calórica severa com substituição total da dieta por barras energéticas, batidos e sopas, seguida de restrição calórica moderada por mais 8 meses (intervenção severa). Foi prescrita ingestão proteica de 1g/kg de peso corporal/dia em ambos os casos e a atividade física foi encorajada, ainda que não supervisionada. Os doentes, clínicos e avaliadores não estavam cegos. A análise dos dados foi por intenção de tratar e o follow-up foi completo (84,16%).

Quai são os resultados?

O grupo da restrição calórica severa perdeu mais:

  • Massa magra total: dimensão do efeito −1,2kg (IC 95% −2,0 a −0,4kg); 
  • Área muscular na coxa: dimensão do efeito −4,2cm2 (IC 95% −6.5 a −1.9 cm2);
  • DMO femoral: dimensão do efeito −0.017 g/cm2 (IC 95%, −0.029 a −0.005 g/cm2); 
  • Massa gorda total: dimensão do efeito −5,5kg (IC 95% −7.1 a −3.9kg);
  • Tecido adiposo subcutâneo abdominal: dimensão do efeito −1890cm3 (IC 95% −2560 a −1219cm3); 
  • Tecido adiposo visceral: dimensão do efeito −1389cm3 (IC 95% −1748 a −1030cm3).

Foram relatados no total oito episódios de eventos adversos. Seis no grupo e restrição calórica severa, possivelmente relacionados com a intervenção. As queixas eram relativas a hemorróidas (2), litíase biliar (2) e alopécia (2). No grupo de restrição calórica moderada foram apenas reportados dois episódios de enxaqueca num doente já com história prévia deste tipo de sintomas.

Na restrição calórica severa observou-se uma perda de densidade óssea femoral, quando comparada com a restrição moderada, estando associada ao dobro da perda de massa gorda total.

Como posso aplicar os resultados aos meus doentes?

Numa população de Cuidados de Saúde Primários portuguesa, a opção por uma dieta severa seria dificultada pela limitação temporal e de recursos humanos que condiciona a devida avaliação pré e durante o tratamento. Quanto à observação destes efeitos adversos, para melhor poder avaliar a implementação desta terapêutica na nossa população, seria pertinente termos um estudo com seguimento mais longo (o follow-up foi de 12 meses), nomeadamente para perceber se, nas mulheres que abandonaram a restrição calórica severa após atingir o objetivo terapêutico, existiu regressão da perda de densidade de massa óssea femoral. Perante esta dúvida parece-nos importante ter cautela na implementação de regimes de restrição calórica severa nesta população, em especial nas mulheres que tenham já diagnosticada osteopenia ou osteoporose. 

Referência bibliográfica

Seimon, Radhika V., et al. «Effect of Weight Loss via Severe vs Moderate Energy Restriction on Lean Mass and Body Composition Among Postmenopausal Women With Obesity: The TEMPO Diet Randomized Clinical Trial». JAMA Network Open, vol. 2, n. 10, Outubro de 2019, pp. e1913733–e1913733. jamanetwork.com, doi:10.1001/jamanetworkopen.2019.13733.

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