Saber da possibilidade de sobrediagnóstico influencia a decisão de realizar rastreio do cancro da mama? – Notas de Evidentia #042020

Por Maria José Correia

Pergunta Clínica

Será que o conhecimento da possibilidade de existir sobrediagnóstico altera a atitude das mulheres relativamente ao rastreio do cancro da mama?

Veredicto Evidentia Médica

Os rastreios do cancro de mama são promovidos para toda a população com o objetivo de diagnosticar cancro precocemente, com o objectivo de trazer benefícios para a saúde. O conceito de sobrediagnóstico, que representa um dos pontos negativos destes rastreios, é desconhecido do grande público. Este estudo analisa se a possibilidade de existir sobrediagnóstico altera ou não a atitude das mulheres relativamente ao rastreio do cancro da mama. Aqui, os resultados favorecem a realização do rastreio com uma grande maioria das mulheres a preferir fazê-lo mesmo que isso significasse ser diagnosticada e tratada para um cancro que poderia nunca vir a dar problemas. A ideia que pode não ser benéfico detectar um cancro precocemente vai contra a mensagem dada pelos rastreios e é necessário informar sobre o conceito de sobrediagnóstico para permitir à mulher uma escolha consciente. Cabe-nos a nós informar as pessoas e permitir-lhes uma escolha informada, pois uma vez diagnosticada uma neoplasia não somos capazes de saber exactamente qual será o prognóstico.

Qual a relevância dessa pergunta?

Atualmente, os rastreios do cancro de mama são promovidos para toda a população com o objetivo de diagnosticar cancro precocemente, sendo assim expectável que tenham benefícios para a saúde. A ideia que pode não ser benéfico detectar um cancro precocemente vai contra a mensagem dada pelos rastreios e é necessário fomentar o conhecimento do conceito de sobrediagnóstico para permitir à mulher uma escolha consciente sobre se deve ou não realizar o rastreio. Por outro lado, com o aumento da incidência e prevalência do cancro de mama, é difícil distinguir se uma mulher que sobrevive ao tratamento do cancro tinha um cancro sobrediagnosticado ou beneficiou de facto do rastreio.

Quem financiou?

Australian Government Research Training Program (RTP) Scholarship, Sydney Medical School Foundation Scholarship, The University of Sydney, Australia, National Health and Medical Research Council (NHMRC No. 1037028) and NHMRC Early Career Fellowship 1112509. Os acordos asseguravam a independência do estudo.

Que tipo de pergunta faz este estudo?

Qualitativo – impacto da percepção de conceitos sobre decisões clínicas.

Considerações metodológicas

Este estudo pretende também perceber se a atitude depende do tratamento esperado após o sobrediagnóstico, da percepção do risco de sobrediagnóstico, da experiência prévia com programas de rastreios ou das características socio-demográficas.

O estudo recorreu a um questionário online, aplicado através da plataforma da companhia Kantar, que recruta participantes de várias maneiras (redes sociais, co-registo, etc). O questionário mostrava 4 cenários de tratamentos e questionava qual a taxa de sobrediagnóstico que as mulheres estavam dispostas a ter para cada um deles. O estudo descreve extensamente os métodos utilizados mas não analisa se a formulação das perguntas condicionou a resposta das mulheres, ainda que os investigadores tenham feito um estudo piloto. Apesar do método usado garantir a aleatorização e anonimização dos dados, existe algum enviesamento da amostra por não haver garantias de representatividade da população amostral com a população dos países em estudo.

Quais são os resultados?

A maioria das mulheres opta por realizar sempre o rastreio, mesmo com uma relação 6:1 (casos de sobrediagnóstico : casos de morte), ainda que a aceitação seja maior quando o tratamento é menos agressivo.

403 holandesas e 400 australianas responderam ao questionário. Destas, metade delas faria sempre o rastreio mesmo no caso de 1 morte evitada para 6 casos de sobrediagnóstico. As mulheres aceitam mais facilmente fazer o rastreio se o tratamento proposto para o caso de sobrediagnóstico for tumorectomia sem tratamento adjuvante vs mastectomia associada a quimio e hormoterapia, se já tiverem tido contacto prévio com o método de rastreio (p<0.001), filhos (p=0.04) ou um pior entendimento do conceito de sobrediagnóstico. Não houve variações socio-demográficas significativas entre os dois países, tendo as holandesas um número superior de licenciadas ainda que menor literacia em saúde. A percepção de risco e medo era superior na Holanda. Não se verificaram variações claras entre países na compreensão do conceito abstrato de sobrediagnóstico com 2 em cada 3 mulheres a falhar no teste de compreensão. Aquelas mulheres que entendiam o conceito tinham um menor probabilidade de aceitarem fazer o rastreio.

Como posso aplicar os resultados aos meus doentes?

Existe algum enviesamento da amostra por não haver garantias de representatividade da população amostral com a população dos países em estudo. Os resultados destes estudo podem ser aplicados numa população de mulheres com ensino secundário ou licenciatura e que tenham um nível médio-alto de literacia em saúde, o que não representa a população habitual de muitas unidades de saúde.

Referências Bibliográficas

Stiggelbout, Anne, et al. «Women’s Acceptance of Overdetection in Breast Cancer Screening: Can We Assess Harm-Benefit Tradeoffs?» Medical Decision Making, vol. 40, n. 1, Janeiro de 2020, pp. 42–51. SAGE Journals, doi:10.1177/0272989X19886886

https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/0272989X19886886

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