Que terapêutica anti-trombótica se associa a menor taxa de hemorragia e eventos tromboembólicos na Fibrilhação Auricular após stent coronário? – Notas de Evidentia #282019

Por Susana Pires

PERGUNTA CLÍNICA

P – Adultos com fibrilhação auricular não-valvular pós angioplastia coronária com colocação de stent

I – Terapêutica tripla (inibidor de vitamina K + dupla terapêutica antiagregante)

C – Dupla terapêutica antiagregante; anticoagulante oral de acção directa + terapêutica única antiagregante; inibidor de vitamina K + terapêutica única antiagregante; rivaroxabano de baixa dose + dupla terapêutica antiagregante; anticoagulante oral de acção directa + dupla terapêutica antiagregante

O – Eventos cerebrovasculares; mortalidade global; enfartes do miocárdio, eventos cardiovasculares major; hemorragia major.

A RETER

Os regimes terapêuticos com anticoagulantes orais de acção directa (NOACs) associaram-se a menores taxas de hemorragia major e de eventos CV major, mas os regimes com inibidor de vitamina K associaram-se a maiores probabilidades de eficácia na diminuição da mortalidade global e AVCs; impõe-se a personalização destes regimes atendendo ao risco de mortalidade global do doente, bem como ao balanço do risco entre eventos tromboembólicos e eventos hemorrágicos.

QUAL A RELEVÂNCIA DESSA PERGUNTA?

A prevalência da fibrilhação auricular (FA) e da doença arterial coronária aumenta com a idade e há uma percentagem significativa de doentes com FA que se submetem a angioplastia coronária com colocação de stent (5-8%). A terapêutica anti-trombótica “óptima” para equilibrar o risco de eventos tromboembólicos e o risco de eventos hemorrágicos permanece em debate.

QUEM FINANCIOU?

Não é referido.

QUE TIPO DE PERGUNTA FAZ ESTE ESTUDO?

Revisão Sistemática com Meta-análise em rede.

CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS

Incluídos 3 ensaios clínicos e 15 estudos observacionais, com um total de 23 478 indivíduos. Dos 15 estudos observacionais, 8 obtiveram risco moderado de viés e 7 obtiveram risco grave/sério. Os 3 ensaios incluídos obtiveram risco alto de viés de performance e risco baixo nas restantes categorias. Não foi incluído gráfico em funil no artigo. A revisão apresenta os seus resultados de maneira confusa, o que dificulta a percepção de qualidade/resultados/precisão dos estudos individuais que a compõem. Apesar da conclusão favorecer os anticoagulantes orais de acção directa + terapêutica antiagregante única, parece-me que os resultados são bastante favoráveis para o uso do inibidor da vit K (varfarina), com as devidas precauções face ao risco de hemorragia. Os intervalos de confiança não constam nesta revisão sistemática.

QUAIS SÃO OS RESULTADOS?

Inibidor de vit K + terapêutica antiagregante única tem a maior probabilidade (60%) de ser a abordagem mais eficaz para a prevenção de AVC; a terapêutica antiagregante dupla foi a que se mostrou com probabilidade de ser menos eficaz (0.1%). Para a mortalidade global, a abordagem com maior probabilidade de ser mais eficaz foi o inibidor de vit K + terapêutica dupla antiagregante (36.4%). Para a prevenção de efeitos CV major, a abordagem com maior probabilidade de ser mais eficaz foi o anticoagulante oral de acção directa em dose baixa + terapêutica dupla antiagregante (50.6%), o que também se verificou para a prevenção de enfarte do miocárdio (melhor probabilidade, com 40%). Já para a prevenção de hemorragia major, a abordagem com maior probabilidade de ser mais eficaz foi o anticoagulante oral de acção directa em dose baixa + terapêutica única antiagregante (53.3%), sendo que os regimes com inibidor de vit K encontraram-se mais associados a hemorragia do que os regimes com anticoagulantes orais de acção directa.

Os intervalos de confiança e o I2 não constam nesta revisão sistemática.

COMO POSSO APLICAR OS RESULTADOS AOS MEUS DOENTES?

Os resultados, apesar de clinicamente relevantes, desconhece-se se serão estatisticamente significativos. Esta revisão apresenta algumas limitações, pelo que a sua aplicabilidade deve ser pensada caso a caso.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Knijnik, Leonardo, et al. “Prevention of Stroke in Atrial Fibrillation After Coronary Stenting: Systematic Review and Network Meta-Analysis.” Stroke, vol. 50, no. 8, Aug. 2019, pp. 2125–32. DOI.org (Crossref), doi:10.1161/STROKEAHA.119.026078

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Idosos e Fragilidade – treino de força e suplementação proteica têm eficácia para atrasar/reverter a fragilidade? – Notas de evidentia #182019

Por Mariana Prudente

Pergunta Clínica

Qual a intervenção mais eficaz e prática/fácil de implementar nos Cuidados de Saúde Primários para atrasar ou reverter situações de fragilidade?

A Reter

Este estudo tem graves limitações metodológicas. A atividade física, especialmente o treino de força, diminui o risco de quedas. É necessário proceder a uma revisão sistemática metodologicamente adequada sobre o tema.

Qual a relevância dessa pergunta?

Com o envelhecimento da população e aumento da esperança média de vida, será cada vez mais frequente depararmo-nos com situações de fragilidade, com mais custos associados, nomeadamente por fraturas após queda, intercorrências infeciosas com internamentos prolongados e cirurgias e maior morbilidade e menor qualidade de vida. Assim, têm sido desenvolvidas algumas ferramentas para a sua identificação precoce e propostas várias intervenções de modo a atrasar ou reverter situações de fragilidade.

Quem financiou?

Um dos autores recebeu uma bolsa da Irish Health Research Board for Systematic Approach for improving care for frail older people (SAFE) study (referencia APA-2016-1857).

Que tipo de pergunta fez este estudo?

Pergunta de eficácia – Revisão Sistemática.

Considerações metodológicas

Não foi definida população a que se dirige as intervenções, depreende-se população idosa e com fragilidade, mas não está definida nos critérios, idade, comorbilidades, cut off e critério para estabelecer fragilidade. Na pergunta pretendem não só perceber quais as intervenções mais eficazes mas baseiam-se em redução de riscos relativos (sem o descreverem) mas também na facilidade da sua aplicação nos Cuidados de Saúde Primários (sem descreveram custos, tempo e recursos necessários para cada uma das intervenções realizadas em cada estudo que utilizaram). Não publicaram tabela de avaliação qualidade e viés dos vários estudos incluídos. Optaram por excluir literatura ‘cinzenta’. E não facilitam a leitura para a avaliação metodológica e resultados obtidos, dado não apresentarem descrição breve dos vários estudos, local de realização, outcomes, descrição da população e amostra utilizada, intervenções e outcomes avaliados. Apesar de um objetivo ser perceber a facilidade na aplicação de determinada intervenção, não foi descrito o tempo necessário de cada intervenção para obtenção de ganhos, nem custos e recursos utilizados.

Quais são os resultados?

O treino de força e o reforço proteico na dieta parecem reduzir o risco relativo de fragilidade. Os resultados são pouco precisos, não são apresentados os intervalos de confiança. Não sabemos se os resultados são estatisticamente significativos ou clinicamente importantes. Não foi apresentado valor de I2, é apenas referida grande heterogeneidade dos estudos. Esta revisão tem vários erros metodológicos que dificultam a interpretação dos resultados obtidos…

Como posso aplicar estes resultados aos meus doentes?

Estimular uma vida ativa (marcha, exercícios de força e equilíbrio) e alimentação adequada, especialmente em situações de fragilidade, poderá ajudar na diminuição de casos de desnutrição e diminuição do risco de quedas, podendo assim talvez melhorar a sua qualidade de vida e diminuir nº internamentos por fratura e intercorrências infeciosas (ex. pneumonia).

Referência bibliográfica:

Travers, John, et al. «Delaying and Reversing Frailty: A Systematic Review of Primary Care Interventions». British Journal of General Practice, vol. 69, n. 678, Janeiro de 2019, pp. e61–69. DOI.org (Crossref), doi:10.3399/bjgp18X700241.

https://bjgp.org/content/69/678/e61

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