Lombalgia e o Dr. Google: qual a credibilidade das recomendações em websites gratuitos? – NOTAS DE EVIDENTIA #212019

Por Maria José Correia

Pergunta Clínica

Qual a credibilidade, exatidão e abrangência das recomendações sobre lombalgia aguda, persistente ou com características radiculares em website gratuitos, sem fins comerciais, vistos como fiáveis pela população?

A Reter

Este estudo tinha como objetivo avaliar a credibilidade, a exatidão e a abrangência das recomendações sobre o tratamento das dores de costas em páginas web de instituições governamentais e/ou sem âmbito comercial, tidas como fiáveis pelos utentes. Segundo os autores, a informação presente é de baixa qualidade, pelas numerosas inexatidões e por não abordar a maioria das recomendações da NICE (2016) ou AFP (2017) sobre o tratamento da lombalgia. Se a população recorre habitualmente à internet como fonte de informação sobre problemas de saúde, deveria estar disponível informação atualizada, fiável e de fácil compreensão de maneira a contribuir para a literacia em saúde dos nossos utentes. Seria interessante replicar este estudo em contexto nacional para ver se os resultados seriam semelhantes.

Qual a relevância dessa pergunta?

De acordo com alguns estudos, a maior parte das pessoas recorre à internet para obter informações sobre problemas de saúde antes de recorrer ao seu médico assistente. Quando utilizada corretamente, a informação permite diminuir o número de visitas a uma instituição de saúde. No entanto, se a informação disponibilizada for de baixa qualidade, haverá uma maior procura por cuidados de saúde que poderia ser dispensada, associada a maior ansiedade por parte das pessoas.

Quem financiou?

Bolsas de investigação financiadas pela National Health Medical Research Council Early Career Fellowship

Que tipo de perguntas faz este estudo?

Revisão sistemática

Considerações metodológicas

Apesar de se descrever como uma revisão sistemática, o artigo tem como objetivo caracterizar as páginas web de forma detalhada e sistemática. Não existem estudos semelhantes sobre esta temática que visem apenas páginas web sem fins comerciais. Os dados foram retirados de páginas web de instituições governamentais, hospitais, ordens profissionais e universidades, assim como de organizações sem fins lucrativos de 6 países anglófonos. Em todas tinha que constar informação sobre o tratamento da lombalgia aguda, persistente com ou sem irradiação. As palavras chave relacionadas com lombalgia foram codificadas com recurso a Google Adwords, individualmente para cada país e, posteriormente, colocadas no motor de busca Google. Um investigador avaliou as primeiras 50 entradas de cada palavra chave e forneceu os urls aos restantes investigadores para avaliação. Apesar de Google Adwords não ser considerado um mecanismo válido para investigação, neste caso foi a solução encontrada para adaptar as palavras-chave à população do país. A escolha das 50 entradas da pesquisa do Google é representativo do que um utilizador médio faria. Os investigadores compararam a informação das páginas com as recomendações da NICE (2016) e ACP (2017) para o tratamento da lombalgia aguda, persistente e com irradiação. A informação das páginas foi classificada segundo:

  1. Credibilidade – usando os critérios JAMA benchmark,
  2. Exactidão – proporção de recomendações que seguiam as guidelines,
  3. Abrangência – proporção de medidas recomendadas sobre o total de recomendações das guidelines.

Quais são os Resultados?

Globalmente, as recomendações encontradas sobre lombalgia não são abrangentes e são na maioria dos casos pouco fiáveis, estando desatualizadas em 68% dos casos. As páginas web incluídas neste estudo pertenciam sobretudo a hospitais ou agências governamentais (68%) e a maioria delas não disponibilizava referências (73,4%), autores (77.25%) ou declaração de conflito de interesses (93.7%). As recomendações sobre lombalgia aguda são as mais exatas (50,4%) e abrangentes (28.6%), de acordo com as guidelines da NICE e AFP, quando comparadas com as recomendações sobre lombalgia persistente (exactidão 38.3%, abrangência 18%) ou lombalgia irradiada (exatidão 38.7%, abrangência 16.4%).

Globalmente, as recomendações encontradas nas páginas web não permitem que se faça uma verificação de fontes/autores, o que as torna menos credíveis. A informação constante nas páginas é de baixa qualidade, sendo pouco exactas e abrangentes para todos os tipos de lombalgia.

Como posso aplicar os resultados aos meus doentes?

Este estudo serve para nos colocar de sobreaviso relativamente à informação sobre saúde que existe disponível online. A maioria das páginas de internet apresenta informação de baixa de qualidade, pelo que é importante alertar os utentes para o tipo de informação que procuram na internet, para a fiabilidade dos dados e para os riscos versus benefícios de aceder a esta informação antes de contactar um médico. Por outro lado, deixa-nos também em sobreaviso para a necessidade de indicar/criar páginas web com informação fiável e clara sobre os problemas de saúde mais frequentes para os utentes, contribuindo para o aumento da literacia em saúde, baseado na melhor evidência científica disponível.

Referência Bibliográfica

Ferreira, Giovanni, et al. «Credibility, Accuracy, and Comprehensiveness of Internet-Based Information About Low Back Pain: A Systematic Review». Journal of Medical Internet Research, vol. 21, n. 5, 2019, p. e13357. http://www.jmir.org, doi:10.2196/13357

https://www.jmir.org/2019/5/e13357/

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Idosos e Fragilidade – treino de força e suplementação proteica têm eficácia para atrasar/reverter a fragilidade? – Notas de evidentia #182019

Por Mariana Prudente

Pergunta Clínica

Qual a intervenção mais eficaz e prática/fácil de implementar nos Cuidados de Saúde Primários para atrasar ou reverter situações de fragilidade?

A Reter

Este estudo tem graves limitações metodológicas. A atividade física, especialmente o treino de força, diminui o risco de quedas. É necessário proceder a uma revisão sistemática metodologicamente adequada sobre o tema.

Qual a relevância dessa pergunta?

Com o envelhecimento da população e aumento da esperança média de vida, será cada vez mais frequente depararmo-nos com situações de fragilidade, com mais custos associados, nomeadamente por fraturas após queda, intercorrências infeciosas com internamentos prolongados e cirurgias e maior morbilidade e menor qualidade de vida. Assim, têm sido desenvolvidas algumas ferramentas para a sua identificação precoce e propostas várias intervenções de modo a atrasar ou reverter situações de fragilidade.

Quem financiou?

Um dos autores recebeu uma bolsa da Irish Health Research Board for Systematic Approach for improving care for frail older people (SAFE) study (referencia APA-2016-1857).

Que tipo de pergunta fez este estudo?

Pergunta de eficácia – Revisão Sistemática.

Considerações metodológicas

Não foi definida população a que se dirige as intervenções, depreende-se população idosa e com fragilidade, mas não está definida nos critérios, idade, comorbilidades, cut off e critério para estabelecer fragilidade. Na pergunta pretendem não só perceber quais as intervenções mais eficazes mas baseiam-se em redução de riscos relativos (sem o descreverem) mas também na facilidade da sua aplicação nos Cuidados de Saúde Primários (sem descreveram custos, tempo e recursos necessários para cada uma das intervenções realizadas em cada estudo que utilizaram). Não publicaram tabela de avaliação qualidade e viés dos vários estudos incluídos. Optaram por excluir literatura ‘cinzenta’. E não facilitam a leitura para a avaliação metodológica e resultados obtidos, dado não apresentarem descrição breve dos vários estudos, local de realização, outcomes, descrição da população e amostra utilizada, intervenções e outcomes avaliados. Apesar de um objetivo ser perceber a facilidade na aplicação de determinada intervenção, não foi descrito o tempo necessário de cada intervenção para obtenção de ganhos, nem custos e recursos utilizados.

Quais são os resultados?

O treino de força e o reforço proteico na dieta parecem reduzir o risco relativo de fragilidade. Os resultados são pouco precisos, não são apresentados os intervalos de confiança. Não sabemos se os resultados são estatisticamente significativos ou clinicamente importantes. Não foi apresentado valor de I2, é apenas referida grande heterogeneidade dos estudos. Esta revisão tem vários erros metodológicos que dificultam a interpretação dos resultados obtidos…

Como posso aplicar estes resultados aos meus doentes?

Estimular uma vida ativa (marcha, exercícios de força e equilíbrio) e alimentação adequada, especialmente em situações de fragilidade, poderá ajudar na diminuição de casos de desnutrição e diminuição do risco de quedas, podendo assim talvez melhorar a sua qualidade de vida e diminuir nº internamentos por fratura e intercorrências infeciosas (ex. pneumonia).

Referência bibliográfica:

Travers, John, et al. «Delaying and Reversing Frailty: A Systematic Review of Primary Care Interventions». British Journal of General Practice, vol. 69, n. 678, Janeiro de 2019, pp. e61–69. DOI.org (Crossref), doi:10.3399/bjgp18X700241.

https://bjgp.org/content/69/678/e61

Evidentia da semana #172019

Destaque

Curso de Avaliação de Literatura Médica – 4ª edição – 01 a 05 de Julho de 2019 – inscrições abertas – link aqui

Recomendações

Diabetes: recomendações alimentares para pessoas em risco
(vamos evitar o rótulo pré-diabetes)
O que sobressai é a recomendação de intervenções intensivas no estilo de vida devem ser prioridade para serviços de saúde
https://t.co/okAJBI0zyO #recomendações

Rastreio bacteriúria assintomática em mulheres adultas:
grávidas SIM; resto NÃO
https://t.co/SLmWPJeQGq #recomendações

Crianças e Grávidas: USPSTF conclui que não tem evidência para recomendar a favor ou contra o rastreio de níveis elevados de chumbo. USPSTF – https://t.co/4hrjwrL0pU #recomendações
Editorial JAMA – https://t.co/wwwQDhRNg6 

Declaração de Copenhaga para Actividade Física e envelhecimento. 30 recomendações organizadas em 4 temas: capacidade funcional; cognição e saúde mental; alteração de comportamentos; perspectiva social 
https://t.co/cHGQEgYRqf #recomendações

Revisões Sistemáticas

Inequidade nos cuidados de saúde: baixo nível socioeconómico associado a mais morte em hospital (vs em casa); a mais episódios de urgência no último ano de vida; a menos acesso a cuidados paliativos; 
https://t.co/Gw28dz4dCv #revisãosistemática

DPOC: acrescentar LAMA a terapia dupla com ICS/LABA acrescentou benefício clínico (FEV1, exacerbações, efeitos adversos CV).
https://t.co/nFH75c8R17 #revisãosistemática

Infecções urinárias de repetição nas crianças: tratamento de longa duração (2 meses a 2 anos) com antibióticos oferece pequeno benefício que contrasta com potencial risco de efeitos adversos.
Decisão difícil que deve mesmo ser individualizada (risco individual).
https://t.co/1XYf1rGi50 #revisãosistemática

Estatinas em prevenção primária – revisão de revisões sistemáticas
Lá está: decisão individualizada. Depende do risco cardiovascular basal 
https://t.co/TuykA7wH6P #revisãosistemática

Alergia ao amendoim: os regimes de imunoterapia oral disponíveis aumentam o risco de reacção alérgica e anafilaxia. Atenção!
Precisamos urgentemente de novas opções e de ensaios bem feitos. 
https://t.co/Ml0dSvkaWs #revisãosistemática #metaanálise

Estudos Primários

Hidroxicloroquina com bons resultados na proteinuria da Nefropatia IgA. Estudo pequeno que deve dar lugar a um estudo maior mas é promissor (importante pela falta de tratamentos para evitar transplantes em jovens) 
https://t.co/rX19IAJMSB #ensaioclinico

Devemos adicionar relaxantes musculares a anti-inflamatórios na lombalgia? não vale a pena. 
https://t.co/jAQnyQeI1v #ensaioclinico
A minha pergunta é: e os anti-inflamatórios valem a pena? Já sabiamos q são pouco mais que placebo https://t.co/ONGKuhAmyZ

Semaglutido na diabetes: mais um ensaio com resultados glicémicos e não resultados clinicamente relevantes… insuficiente para entrar no arsenal 
https://t.co/6JGXNPpWAC #ensaioclinico #queremosoutcomesclinicos

Metformina associada a redução de peso e manutenção dessa redução a longo prazo. As restantes conclusões dos autores parecem-me roçar a especulação. 
https://t.co/56VMF09Csj #análiseposthoc

Saltar pequeno almoço: estudo associa maior mortalidade nas pessoas que não tomam nunca pequeno-almoço. Atenção: estudo observacional 
https://t.co/K6BDydvNae #observacional

Morte súbita nos bébes – estudo confirma: devem dormir de costas, cama individual (não partilhada) e sem roupa de cama macia (cobertores, almofadas, travesseiros, etc..) na sua área de sono 
https://t.co/POrMvPcd5b #observacional

Tabaco e gravidez: deixar de fumar associado a redução do risco de parto prematuro, mesmo para grandes fumadoras – e quanto mais no início da gravidez melhor. 
https://t.co/wajs10dS5D #observacional

Cada vez passamos mais tempo sentados. Crianças e adolescentes ocupam cada vez mais do seu tempo de lazer sentados a olhar para ecrãs. 
https://t.co/fqCtrR0qSY #observacional #boraláparaforajogaràbola

Outros

Videos explicativos para inaladores – em inglês 
https://t.co/Dmu46QW8e4 #útil #educaçãomédica

Sarampo: 681 casos nos EUA – o maior número desde há 19 anos.
Vale a pena este editorial no Lancet – https://t.co/QxGEW37toi 
números no CDC https://t.co/taPvFWlCoP #VacinasFuncionam

Tempo de abandonar rastreios oncológicos? “O rastreio continua a ser promovido como um fundamental no controlo do cancro, apesar da evidência cada vez maior de que são criados mais danos do que benefícios” https://t.co/kf5ia0UpKW #opiniao

MGF no Sociedade Civil da RTP2 – Parabéns Alexandra pelo testemunho e pelas palavras que muito dignificam a MGF (como habitual aliás). Tb muito bem o Dr. Carlos Nunes e o Dr. Henrique Botelho. Obrigado aos três pela fantástica representação da MGF
https://www.rtp.pt/play/p5300/e402900/sociedade-civil

Episódio#14 – Vacina da gripe

Numa altura em que se espera que a gripe apareça em grande, dedicamos um episódio a rever a prova científica à volta da vacina da gripe.

Não percas o documento de apoio que fizemos com os Números Necessários de Vacinar para diferentes populações disponível abaixo e na página de ferramentas de apoio à decisão.

 

gripe

Algumas das referências mencionadas:

DGS – Norma nº 018/2018 de 03/10/2018 – Vacinação contra a gripe. Época 2018/2019

Revisões Cochrane:

Episódio #11 – Anticoagulantes – prevenindo o nó cerebral

Neste episódio o David e o Daniel tentam desfazer o nó cerebral que são as indicações de anticoagulação na fibrilhação auricular e tromboembolismo venoso. Que fármacos? que doses? em que situações?
Não deixem de acompanhar o episódio com este quadro que ficará “arrumado” na página Apoio à Decisão Clínica

click na imagem para abrir o pdf:

Quadro de iniciação de anticoagulantes
Ajudem-nos a melhorar, enviem comentários e opiniões!
O que acharam do episódio?
E do quadro? sugiram melhorias.

Até breve!

 

Boletim Terâpeutico nº 5 da ARSLVT – Anticoagulantes

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