Devemos recomendar o rastreio do cancro colo-retal? Se sim, por que método? – Notas de evidentia #332019

Por Inês Laplanche Coelho

PERGUNTA CLÍNICA

Primeira pergunta: Será que o rastreio do cancro colo-retal (CCR) traduz uma diferença importante nos outcomes de saúde ao fim de 15 anos, em pessoas entre os 50 e os 79 anos?

Segunda pergunta: Em indivíduos entre os 50 e os 79 anos elegíveis para rastreio de cancro colo-retal (CCR), qual dos 4 métodos de rastreio (teste imunoquímico fecal 1x/ano, teste imunoquímico fecal de 2 em 2 anos, sigmoidoscopia ou colonoscopia) se traduz em melhor outcome (mortalidade por todas as causas, mortalidade por CCR, incidência de CCR, hemorragia gastrointestinal e perfuração, outros eventos  adversos graves e número de indivíduos a necessitar de pelo menos, uma duas ou mais colonoscopias)?

A RETER

Estas recomendações aplicam-se a pessoas entre os 50 e os 79 anos elegíveis para rastreio de CCR. Os autores sugerem usar uma ferramenta como a calculadora QCancer® para estimar o risco de CCR individual nos próximos 15 anos. Os autores recomendam que não se proponha rastreio se risco < 3%. Para risco >3%, os autores recomendam qualquer uma das quatro opções: teste imunoquímico fecal anual, teste imunoquímico fecal de dois em dois anos, sigmoidoscopia ou colonoscopia. Este é um artigo metodologicamente bem construído e com uma pergunta útil para a prática clínica. Foram feitos esforços para cumprir todos os requisitos para construir um documento robusto, no entanto o nível de evidência avaliado pela metodologia GRADE é baixo, traduzindo-se em recomendações fracas. Mais ainda, não sendo conclusivo qual o método mais eficaz para o rastreio, a escolha deve ser feita de acordo com a preferência individual do doente.

QUAL A RELEVÂNCIA DESSA PERGUNTA?

Muitas guidelines recomendam o rastreio do CCR mas existem muitas variações no método, idade de início e frequência recomendados.

QUEM FINANCIOU?

Estas recomendações não foram financiadas.

QUE TIPO DE PERGUNTA FAZ ESTE ESTUDO?

NOC/Guideline

CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS

Em geral os métodos foram adequados. Houve uma descrição clara da intervenção, foram tidas em conta as consequências importantes para os doentes. A recomendação baseia-se em várias revisões sistemáticas recentes, contudo o nível de evidência foi classificado como baixo através da metodologia GRADE, exceto para a colonoscopia. Os autores relataram não existir conflitos de interesse e a informação que é fornecida promove a tomada de decisão partilhada.

QUAIS SÃO OS RESULTADOS?

Estas recomendações aplicam-se a adultos com idades entre 50 e 79 anos, sem rastreio prévio, sem sintomas de CCR e esperança de vida de pelo menos 15 anos.

  • Para indivíduos com um risco estimado de CCR abaixo de 3% aos 15 anos, sugerem não fazer rastreio.
  • Para indivíduos com um risco estimado de CCR superior a 3% aos 15 anos, sugerem rastreio com uma dos quatro métodos de triagem:
    • Teste imunoquímico fecal anual
    • Teste imunoquímico fecal de dois em dois anos
    • Sigmoidoscopia (única)
    • Colonoscopia (única)

Força de Recomendação: Fraca para ambas as recomendações

COMO POSSO APLICAR OS RESULTADOS AOS MEUS DOENTES?

As intervenções estudadas podem ser aplicadas no nosso contexto clínico. Foram tidos em conta os resultados clinicamente importantes para o doente e a informação que é fornecida promove a tomada de decisão partilhada. Contudo, a força de recomendação é fraca para ambas as recomendações. Desta forma, estes resultados devem ser explicados ao doente, os riscos e benefícios de cada intervenção e a decisão deve ser tomada conforme a preferência individual de cada doente.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Helsingen, Lise M., et al. «Colorectal Cancer Screening with Faecal Immunochemical Testing, Sigmoidoscopy or Colonoscopy: A Clinical Practice Guideline». BMJ, Outubro de 2019, p. l5515. DOI.org (Crossref), doi:10.1136/bmj.l5515.

https://www.bmj.com/content/367/bmj.l5515

Evidentia da Semana #192019

Destaque

Muita literatura esta semana. Algumas discussões e recursos na secção final “outros” são imperdíveis! Para digerir com calma.
Mantemos o destaque do Curso de Avaliação de Literatura Médica – 4ª edição – 01 a 05 de Julho de 2019 – inscrições abertas – link aqui

Recomendações

AVC e AIT – guideline da NICE. Atenção porque as recomendações são para o contexto britânico. Atenção: necessário contextualizar para a nossa realidade. Falam de centros de atendimento a AVC e uso de RMN como primeira linha no Dx diferencial.
https://t.co/aAYnG54Yh9 #recomendações

Ovário poliquístico – guideline pra avaliação e gestão clínica 31 recomendações baseadas em evidências, 59 recomendações de consenso clínico e 76 pontos de prática clínica 
https://t.co/fKruA39EU8 #recomendações

Revisões Sistemáticas

Lombalgia e o Dr. Google: websites não comerciais de livre acesso demonstram baixos padrões de credibilidade, fornecem informações imprecisas e não informam adequamente de acordo com os diferentes tipos de LBP. 
https://t.co/JToBpCff25 #revisãosistemática

Estudos primários

Polifarmácia: revisão da medicação atendendo aos objectivos pessoais do doente pode levar a melhor qualidade de vida e decréscimo no número de problemas de saúde. Ensaio DREAMeR 
https://t.co/HS7mLz6eU2 #ensaioclinico

Diabetes: autogestão vs gestão médica na titulação de insulina glargina em diabéticos não controlados. Auto-gestão melhor. 2 notas: 1. envolver a pessoa na gestão dos seus problemas é essencial; 2. nem todos o conseguem https://t.co/urSLOs4GLv #ensaioclinico

Voluntários + equipa de cuidados primários no apoio aos objectivos de saúde e necessidades dos idosos. Ensaio negativo mas.. 1.pouco tempo de seguimento; 2. resultados apontam no bom sentido;3. fantástica ideia! 
https://t.co/fXLgvBvVZl #ensaioclínico

Rastreio do cancro do cólon: AAS (dose única) antes de PSOF não melhora a acuidade diagnóstica do teste. 
Nota: a plausabilidade biológica é o AAS fazer sangrar mais facilmente zonas frágeis (como o tecido neoplásico).
https://t.co/rrZ0eGi6WK #ensaioclínico

Progesterona ineficaz nas ameaças de aborto (hemorragias) no primeiro trimestre da gravidez. Não leva a mais nascimentos. 
https://t.co/2tvlIf8UvX #ensaioclinico

Multimorbilidade: gestão de doenças crónicas através de mensagens electrónicas num portal. Estudo Qualitativo. Os doentes vêm vantagens neste tipo de interacção, sempre que seja depois de uma consulta presencial. Também vêm riscos. https://t.co/Tig48tNVdb #qualitativo Opinião da fantástica @susanmsmith sobre o ensaio TAPESTRY mencionado no útlimo
https://t.co/IYaAEg1ntt #opinião

Demência e as barreiras à decisão clínica: falta de informação sobre eficácia e segurança dos medicamentos; dificuldade em avaliar os efeitos da mesma e a percepção de que interromper os medicamentos é vista como “desistir”. https://t.co/vIVBVDSOCK #qualitativo

Diabetes iSGLT2 e gangrena de fournier (fasceíte necrotizante). Análises de casos reportados à FDA. Cuidado! Importante reconhecer cedo. https://t.co/aAju1L23rt #observacional

Próstata: uso de 5alfa-reductasas pré-diagnóstico associado com atraso no diagnóstico e maior mortalidade em homens que fizeram rastreio com PSA. Uii.. cuidado.  
https://t.co/QC9U1FvDIY #observacional

Sexo: cada vez se faz menos. 🤨
Estudo no Reino Unido. Qual a repercussão destes dados na saúde pública? https://t.co/hYTnWmLlcU #observacional

Probióticos após antibióticos. Evidência que apoia eficácia é fraca e com viéses e a segurança a longo prazo é desconhecida em pessoas doentes. Investigação mais rigorosa a ser feita. https://t.co/aMKlg1jUAA #revisão narrativa

Dieta e mortalidade: os riscos alimentares foram responsáveis por 11 milhões mortes (22% de todas as mortes entre adultos) e 255 milhões DALYs (15% de todos os DALYs entre adultos); Vejam os gráficos no final do post👇 https://t.co/7ncNnqNiSZ #populacional

Outros

NOAC – está entornado o caldo.
Dúvidas lançadas sobre falsificação de dados no ensaio do Apixabano. O silêncio da Pfizer e do NEJM é ensurdecedor. https://t.co/YnRHNqBTQN 
Estas dúvidas não são novas: https://t.co/hwVG8qD2dY #opinião

Currently, there is massive production of unnecessary, misleading, and conflicted systematic reviews and meta‐analyses” Alerta de J. Ioannidis https://t.co/4unOI20DQz #opinião

O que é o viés de publicação? Resposta aqui: https://t.co/VQqU9iqRIu Se quiserem entender isto numa aula com exemplos 👉 CALM (curso de avaliação de literatura médica) 1ª semana de julho na NOVA Medical School Lisboa 
https://t.co/Jq58yVWTQu #educaçãomédica

Diabetes iSGLT2 e GLP-1: resumo de benefícios cardiovasculares e os efeitos adversos. Recordem que: 1. população: DMT2 com elevado risco de evento cardiovascular 2. fármacos novos: meter a lente céptica sff 
https://t.co/ocNUGmVkgs #educaçãomédica

Guia para métodos anticonceptivos (em espanhol) https://t.co/f1LHLhzVLy #educaçãomédica


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