Risco genético, estilo de vida e incidência de AVC – notas de evidentia #8 | 2019

Por Alice Magalhães

Existirá uma associação entre risco genético individual, adesão a estilos de vida saudáveis e incidência de AVC inaugural, em indivíduos sem antecedentes de doença cardiovascular?

O que fizeram?

Coorte prospectivo, de base populacional.
Entre 2006 e 2010, foram recrutados 306 473 participantes do estudo UK Biobank, de ambos os sexos, entre os 40 e os 73 anos, sem história prévia de AVC ou EAM. O follow-up mediano foi de 7.1 anos (2 138 443 pessoas-ano).
Foi analisado o perfil genético individual e a adesão a estilos de vida saudáveis. Estimou-se o hazard ratio (HR) para a ocorrência de um primeiro AVC.
Com base em poliformismos genéticos associados a AVC inaugural, definiram-se 3 categorias de risco genético: baixo, intermédio e alto risco.
A adesão a estilos de vida saudáveis foi definida de acordo com as guidelines da AHA, avaliando 4 factores: não-fumador, dieta saudável, IMC <30Kg/m2, e prática de exercício físico. O estilo de vida era definido como: favorável (3 ou 4 factores), intermédio (2 factores) ou desfavorável (0 ou 1 factor).
Nos indivíduos com risco genético alto, houve um aumento de 35% no risco de AVC inaugural (HR 1.35; IC 95%, 1.21 a 1.5), relativamente aos indivíduos com risco genético baixo, independentemente do estilo de vida.
Um estilo de vida desfavorável associou-se a um aumento de 66% no risco de AVC inaugural, comparativamente a um estilo de vida favorável (HR 1.66; IC 95%, 1.45  a 1.89). Este aumento de risco verificou-se para qualquer categoria de risco genético.
O risco máximo de AVC inaugural verificou-se na combinação de risco genético alto e estilo de vida desfavorável, com um HR de 2.3, relativamente à combinação de risco genético baixo e estilo de vida favorável.
A análise multivariada mostrou uma sinergia entre a associação de risco genético alto e estilo de vida desfavorável, com um aumento de risco de AVC inaugural superior a 100% comparativamente à associação de risco genético baixo e estilo de vida favorável.

O que concluem?

O risco genético individual e os estilos de vida são factores de risco independentes para a ocorrência de AVC inaugural.
As intervenções sobre os estilos de vida têm um enorme potencial na redução do risco de AVC a nível populacional, mesmo na presença de um risco genético aumentado.

Notas: Apenas foram incluídos indivíduos de raça branca e ascendência britânica, pelo que os resultados poderão não ser generalizáveis.
O risco basal para a ocorrência de AVC inaugural foi definido em indivíduos com baixo risco genético e estilo de vida favorável.
Entre os factores que definem estilo de vida, o consumo de tabaco e um IMC <30Kg/m2, foram os que tiveram maior poder de associação com a ocorrência de AVC inaugural. Relativamente à prática de exercício físico e à dieta, não se observou uma associação estatisticamente significativa.
Os resultados são concordantes com outros estudos de base populacional.


Rutten-Jacobs, Loes CA., et al. «Genetic risk, incident stroke, and the benefits of adhering to a healthy lifestyle: cohort study of 306 473 UK Biobank participants». BMJ 2018;363:k4168 ligação aqui

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FA, antitrombóticos e risco de hemorragia – notas de evidentia #3 | 2019

Por Inês Mendes Correia

Em indivíduos com 50 ou mais anos e diagnosticados com fibrilação auricular, qual o impacto das várias terapêuticas antitrombóticas na ocorrência de hemorragia major?

O que fizeram?

Realizaram um estudo de coortes em doentes dinamarqueses com 50 ou mais anos, com diagnóstico de fibrilhação auricular realizado entre 01 de Janeiro de 1995 e 31 de Dezembro de 2015. Excluíram todos os doentes com diagnóstico em fase de descompensação.
Foram incluídos 272,315 doentes (média de 4 anos de estudo), classificados em 10 categorias de exposição: sem terapêutica anti-trombótica; monoterapia com anti vitamínicos K; monoterapia com anticoagulantes orais diretos (DOAC); monoterapia com aspirina; monoterapia com outro antiagregante; terapêutica dupla com anti vitaminicos K e um agente antiagregante; terapêutica dupla com um DOAC e um antiagregante; terapeutica antiagregante dupla; terapêutica tripla (anti vitaminico K e dois antiagregantes); e terapêutica tripla (DOAC e dois antiagregantes).
Após a obtenção das taxas de incidência de hemorragia major estas foram estratificadas segundo a modalidade de tratamento, idade, pontuação no CHA2DS2-VASc score e co-morbilidades.
O objetivo foi identificar a taxa de incidência de hemorragia major nos vários grupos. Como outcomes secundários foram ainda estudados ocorrência de eventos isquémicos, enfartes do miocárdio e mortalidade por todas as causas.

O que concluem?

Os autores concluem que os doente sob terapêutica tripla tiveram elevada incidência de hemorragia major quando comparados com os que estavam sob monoterapia ou terapêutica dupla.  

Notas: Comparado com a monoterapia com anti vitamínicos K, os hazard ratios ajustados para hemorragia major foram 1.13 (95% CI 1.06-1.19) para terapêutica antiagregante dupla, 1.82 (95% CI 1.76-1.89) para terapêutica dupla com anti vitamínicos K e um agente antiagregante, 1.28 (95% CI 1.13-1.44) para terapêutica dupla com um DOAC e um antiagregante, 3.73 (95% CI 3.23-4.31) para anti vitamínico K e dois antiagregantes e 2.28 (95% CI 1.67-3.12) para DOAC e dois antiagregantes. As análises dos subgrupos demonstraram padrões semelhantes. A taxa de incidência para hemorragia major foi 10.2/100 pessoa-ano nos indivíduos sob terapêutica tripla.
Os autores encontraram elevadas taxas de incidência nos indivíduos com >90 anos sob terapêutica tripla (TI 22.8/100 P-a) ou com um CHA2DS2-VASc score superior a 6 (TI 17.6/100 P-a) ou com história prévia de hemorragia major (TI 17.5/100 P-a).


van Rein Nienke, et al. «Major Bleeding Rates in Atrial Fibrillation Patients on Single, Dual, or Triple Antithrombotic Therapy: Results from a Nationwide Danish Cohort Study». Circulation, vol. 0, n. 0. ahajournals.org (Atypon), doi:10.1161/CIRCULATIONAHA.118.036248. Acedido 11 de Dezembro de 2018. ligação aqui

episódio #2 – Medicina Baseada em Ciência com excepção da Astrofísica e Física Quântica

Episódio #2 do podcast Evidentia Medica
Daniel Pinto e David Rodrigues falam sobre Medicina Baseada em Ciência, ensaios clínicos, medidas de efeito e outros nós cerebrais.
Deixem comentário, entrem na discussão!

Notas do episódio:

1:40 – O que entendemos por Medicina Baseada em Ciência
4:18 – Diferentes tipos de perguntas requerem diferentes metodologias
6:19 – Desenho de um ensaio clínico
8:30 – Riscos Absolutos
9:44 – Diferença de riscos
10:34 – Redução do risco relativo
14:07 – Risco relativo
16:16 – NNT
18:57 – Resumo

Diferentes tipos de perguntas requerem diferentes metodologias de investigação:

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(imagem cedida pelos autores do Curso de Avaliação de Literatura Médica – NOVA Medical School)

 

 

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